OpenAI, Anthropic e Google DeepMind mantêm conversas sobre segurança em inteligência artificial há semanas

A OpenAI confirmou nesta segunda-feira que vem mantendo conversas há várias semanas com a Anthropic e o Google DeepMind sobre a criação de um organismo conjunto voltado à segurança em inteligência artificial. As reuniões acontecem em meio a um cenário de crescente pressão política nos Estados Unidos, onde a equipe do presidente Donald Trump tem minimizado as preocupações com riscos da tecnologia para priorizar a disputa tecnológica com a China.

OpenAI, Anthropic e Google DeepMind unem forças em negociações secretas sobre segurança em IA enquanto governo Trump ignora os riscos da tecnologia - Imagem complementar

De acordo com reportagem do The Information, as discussões entre as três gigantes da inteligência artificial envolvem a formação de um grupo de trabalho que pode servir como base para um futuro orgão regulador do setor. O tema ganhou força após um ensaio publicado em julho por Demis Hassabis, fundador do Google DeepMind, que propôs a criação de uma entidade de padrões conduzida pelos Estados Unidos, inspirada em agências reguladoras já existentes no mercado financeiro.

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A proposta de Hassabis sugere um modelo de parceria público-privada, no qual a indústria forneceria parte do financiamento enquanto especialistas técnicos independentes conduziriam as avaliações dos modelos de inteligência artificial mais avançados antes de seu lançamento ao público. A ideia é que esse tipo de estrutura permita identificar preventivamente problemas graves, funcionando de maneira semelhante a como funcionam órgãos de supervisão de mercados financeiros.

As conversas entre OpenAI, Anthropic e Google DeepMind antecedem inclusive um ensaio recente do diretor-presidente da Anthropic, Dario Amodei, sobre testes e auditoria em sistemas de inteligência artificial, além da renúncia pública de um pesquisador da própria Anthropic que levantou preocupações sobre práticas responsáveis no setor. Esse contexto ajudou a intensificar o debate interno nas principais empresas de IA sobre os caminhos mais seguros para o desenvolvimento da tecnologia.

A movimentação ocorre em um momento de tensão entre os executivos das principais empresas de inteligência artificial e o governo americano. Enquanto líderes do setor defendem uma desaceleração coordenada para permitir que mecanismos de segurança acompanhem o ritmo de evolução dos modelos, a administração Trump tem tratado essas preocupações com desconfiança. Recentemente, o presidente chegou a classificar os alertas sobre regulamentação da inteligência artificial como parte de uma conspiração, defendendo que o país mantenha o ritmo atual de desenvolvimento para não perder terreno na corrida geopolítica com a China.

Apesar dessa resistência do governo, as conversas entre as empresas seguem avançando. Os encontros acontecem em formato de grupo de trabalho e continuaram até a semana passada, segundo pessoas familiarizadas com o assunto ouvidas pelo The Information. O fato de rivais diretas como OpenAI, Anthropic e Google DeepMind estarem dialogando em conjunto sobre segurança aponta para um reconhecimento crescente no setor de que os riscos associados à inteligência artificial exigem respostas coordenadas que extrapolam a capacidade de qualquer companhia isolada.

O contexto mais amplo revela fissuras internas nas próprias empresas de tecnologia. Pesquisadores da Anthropic, OpenAI, Meta e Google têm se mobilizado para aumentar a conscientização sobre os riscos da inteligência artificial, organizando-se por meio de canais internos de mensagens, conversas criptografadas e encontros privados. Esse movimento evidencia que a preocupação com a segurança não se limita mais a debates acadêmicos externos, mas ganhou espaço dentro das próprias companhias que desenvolvem os sistemas mais avançados do mundo.

Enquanto isso, o governo americano tem adotado uma postura de confronto direto com o setor. Em junho deste ano, a administração Trump ordenou a suspensão temporária do acesso a dois modelos avançados da Anthropic, alegando preocupações com segurança nacional relacionadas à possibilidade de burlar barreiras de proteção de cibersegurança. Na ocasião, o governo precisou recorrer a leis de controle de exportações, já que não existem leis específicas de segurança voltadas à inteligência artificial.

Essas ações demonstram que, na ausência de uma legislação abrangente sobre o tema, o Executivo tem utilizado ferramentas regulatórias já existentes para intervir no setor. Parlamentares americanos, por sua vez, permanecem politicamente divididos sobre como regular a inteligência artificial e ainda não apresentaram nenhuma proposta de lei abrangente sobre o assunto, deixando um vácuo normativo que tem sido preenchido por decisões pontuais do governo federal.

A continuidade das conversas entre OpenAI, Anthropic e Google DeepMind sugere que o setor privado pode estar buscando preencher essa lacuna regulatória por conta própria. Caso as discussões evoluam para a criação de um órgão conjunto de padrões, esse pode se tornar o primeiro passo concreto em direção a uma autorregulação coordenada da indústria de inteligência artificial nos Estados Unidos, em um momento em que o debate global sobre os limites e a governança da tecnologia permanece cada vez mais urgente.