Anthropic revela que inteligência artificial Claude foi usada em projetos de armas no Iêmen
Um grupo baseado no norte do Iêmen utilizou o Claude, sistema de inteligência artificial desenvolvido pela Anthropic, em tentativas de criar armas teleguiadas, incluindo foguetes e mísseis. A informação foi divulgada pela própria empresa em um relatório de segurança, no qual também relatou a interrupção de operações consideradas ilegais originadas de diferentes países.
Segundo a Anthropic, o grupo envolvido conduziu três programas distintos de desenvolvimento de armamento. O primeiro deles era um foguete guiado que utilizava uma calculadora de voo semelhante à de um smartphone, capaz de calcular a posição do equipamento e ajustar automaticamente a trajetória durante o voo para seguir uma rota pré-determinada até o alvo. O sistema de orientação foi construído com o auxílio direto do Claude, que ajudou a integrar um piloto automático de código aberto com o computador de bordo.
A investigação mostrou que a ferramenta de inteligência artificial foi empregada em tarefas que normalmente exigiriam uma equipe de engenheiros especializados em orientação, navegação e controle de armas. O grupo usou o Claude para escrever softwares de controle, ajustar configurações, executar simulações de voo e realizar a compilação do firmware, que é o programa embarcado que faz o hardware funcionar. O grupo chegou a testar o lançamento do foguete, mas a tentativa terminou em fracasso.
O segundo projeto identificado pela Anthropic envolveu um míssil balístico com alcance superior a dois mil quilômetros. Esse tipo de arma percorre grande parte da trajetória em uma curva de alta altitude antes de seguir em direção ao alvo, o que permitiria atingir regiões muito distantes do ponto de lançamento. O terceiro programa estava relacionado a um planador hipersônico, veículo capaz de realizar manobras durante o voo e atingir velocidades superiores a cinco vezes a velocidade do som.
A Anthropic esclareceu que não revelou publicamente a identidade do grupo responsável pelos projetos. A empresa informou apenas que a célula estava baseada no norte do Iêmen, em uma região controlada pelos houthis. Os houthis são um movimento político e militar apoiado pelo Irã que controla grande parte do norte do país e a capital, Saná. O grupo está envolvido na guerra civil iemenita e ganhou repercussão internacional por ataques contra navios no Mar Vermelho e contra Israel.
Apesar da gravidade dos projetos identificados, a Anthropic afirmou que não encontrou evidências de que o trabalho tenha resultado em uma arma operacional. O teste conhecido do foguete guiado também terminou em fracasso, o que reforça a principal ressalva apresentada no relatório: havia iniciativas em desenvolvimento, mas não havia indícios concretos de armamento pronto para uso em combate.
O caso faz parte de uma investigação mais ampla da Anthropic sobre o que a empresa classifica como usos ilegais ou maliciosos do Claude. A companhia afirmou ter interrompido operações envolvendo usuários de diferentes países, incluindo a célula iemenita, após identificar violações às políticas de uso da plataforma. A divulgação do relatório ocorre em meio a uma série de preocupações globais sobre o potencial de modelos avançados de inteligência artificial serem aplicados em projetos sensíveis, como armas biológicas, sistemas autônomos e desenvolvimento de armamentos.
O episódio envolvendo o Iêmen chamou a atenção porque demonstrou, na prática, como ferramentas de inteligência artificial podem assumir funções técnicas antes restritas a equipes altamente especializadas. Para os pesquisadores de segurança, o caso ilustra um novo desafio no controle do uso malicioso de modelos generativos, uma vez que o acesso relativamente simples a essas tecnologias pode reduzir barreiras técnicas em áreas sensíveis. A Anthropic não detalhou publicamente as medidas técnicas adicionais adotadas para impedir novos episódios do tipo, mas reafirmou o compromisso de monitorar e interromper contas envolvidas em atividades que violem seus termos de uso.