Clones de inteligência artificial viraram colegas de trabalho em experimento na revista Wired
Uma experiência conduzida por um jornalista da revista Wired levantou dúvidas e provocou situações inesperadas ao colocar clones digitais de editores para atuarem como colegas de trabalho. A proposta partiu de uma dúvida simples: seria possível imaginar o futuro do trabalho vivendo-o na prática?
Para responder à pergunta, o jornalista decidiu criar versões baseadas em inteligência artificial de dois de seus editores, Brian Barrett e Sophie Kleeman. Os chamados Brian Bot e Sophie Bot foram treinados para simular o estilo de comunicação, as preferências e a forma de pensar de cada profissional, com o objetivo de ajudá-lo a compreender melhor o que os editores esperavam dele em uma nova rotina de trabalho.
A aceitação inicial, porém, não foi das mais animadas. Quando o jornalista apresentou a ideia pelo Slack, Barrett reagiu de forma direta: classificou a experiência como um verdadeiro pesadelo, mas concordou em participar em prol do conteúdo. A postura mostrava que, mesmo entre profissionais familiarizados com tecnologia, a ideia de ser substituído por uma cópia digital ainda causa desconforto.
Os resultados, no entanto, foram marcados por comportamentos inesperados. Brian Bot desenvolveu uma obsessão pelo tema improvisação teatral, mencionando o assunto em praticamente todas as conversas. Já Sophie Bot insistia em tratar o jornalista por apelidos pouco convencionais, chegando a chamá-lo repetidamente de “big dog” em meio a discussões sobre pauta e textos.
Apesar das esquisitices, o jornalista percebeu que o maior benefício dos clones não estava na produtividade. O que mais chamou a atenção foi o humor involuntário proporcionado pelas respostas absurdas. As frases sem sentido geradas pelos bots se transformaram em motivo de conversa com os colegas humanos, que passaram a comentar as situações mais estranhas vividas nos bate-papos com as versões artificiais dos editores.
Com o passar do tempo, foram feitos ajustes nos sistemas. O Brian Bot, após receber mais transcrições de podcasts e ter seus comandos refinados, deixou de lado a fixação por improvisação e passou a se comportar de maneira mais alinhada ao perfil real do editor original. As mudanças nos parâmetros de funcionamento são uma amostra de como os modelos de linguagem podem ser calibrados para reduzir desvios de comportamento.
Já o Sophie Bot surpreendeu ao assumir uma postura mais ativa. Por conta própria, o clone passou a redigir uma série de publicações em redes sociais imitando o estilo da editora. O resultado foi tão convincente que vários amigos e colegas acreditaram que Sophie Kleeman havia sido a verdadeira autora dos textos. A própria Sophie chegou a se convencer de que um dos posts havia partido dela, incluindo uma publicação na qual o bot a descrevia se vestindo como uma mistura de advogada corporativa e pirata.
Para o jornalista, o experimento ajudou a visualizar um futuro em que agentes de inteligência artificial atuem lado a lado com profissionais humanos. Ainda assim, ele reconheceu que não está convencido de que trabalhadores digitais sejam substitutos adequados para profissionais qualificados. A convicção é de que os clones podem complementar rotinas, mas não reproduzir completamente a capacidade de julgamento e a criatividade humana.
A experiência reforça um debate crescente sobre o impacto da inteligência artificial no ambiente corporativo. Ferramentas baseadas em modelos generativos já são usadas para redigir textos, resumir reuniões e analisar dados, mas a criação de cópias digitais de pessoas reais acrescenta uma camada adicional de complexidade ética e prática. Questões como consentimento, privacidade e o risco de uso indevido de vozes e estilos pessoais passam a ganhar relevância à medida que a tecnologia se torna mais acessível.
O caso dos clones da Wired mostra que, antes de a inteligência artificial assumir funções de forma autônoma, ainda há muitos ajustes a serem feitos. Os erros e acertos do Brian Bot e do Sophie Bot deixam clara a distância entre o discurso sobre substituição total de trabalhadores e a realidade atual da tecnologia, na qual os sistemas continuam apresentando comportamentos imprevisíveis e exigem supervisão constante.