O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou que não pretende deixar o Brasil dependente da China nem dos Estados Unidos para avançar em inteligência artificial. A declaração foi feita no contexto da disputa eleitoral de 2026 e projeta a soberania tecnológica, entendida como a capacidade de um país desenvolver e controlar suas próprias tecnologias, como um dos eixos centrais do debate presidencial. Para o setor de tecnologia, o posicionamento indica possíveis rumos de políticas públicas, financiamento e desenvolvimento de modelos nacionais nos próximos anos.
"Não quero ficar dependendo da China e dos EUA para o Brasil ter inteligência artificial", disse o presidente. Na mesma fala, Lula citou as políticas conduzidas pelo presidente americano Donald Trump, associando o cenário internacional aos riscos de subordinação em matéria de inovação. A referência liga a agenda digital brasileira às tensões geopolíticas que hoje organizam a indústria global de inteligência artificial.
A posição do presidente reforça duas frentes defendidas pelo governo: a ampliação dos investimentos em sistemas voltados à língua portuguesa e a criação de tecnologia própria. O argumento é que o país precisa gerar capacidade local de desenvolvimento em vez de apenas consumir plataformas fabricadas no exterior, modelo no qual as decisões sobre dados, regras de uso e preços ficam concentradas em grupos estrangeiros.
O cenário internacional sustenta essa leitura. Os modelos de linguagem mais avançados do mundo são treinados por empresas dos Estados Unidos e da China. Do lado americano, OpenAI, criadora do ChatGPT, Google e Anthropic concentram grande parte do mercado; do lado chinês, grupos locais expandem rapidamente sua presença global. O Brasil, nessa equação, participa sobretudo como comprador de tecnologia.
Essa condição impõe limitações concretas. Modelos de linguagem, sistemas de inteligência artificial treinados em grandes volumes de dados para entender e produzir texto, costumam apresentar desempenho inferior em português quando o material de treinamento é composto majoritariamente por inglês e mandarim. Para um país de mais de 200 milhões de habitantes que fala português, a lacuna linguística pesa em aplicações de atendimento ao cidadão, educação e administração pública.
Daí a ênfase em sistemas desenhados para o português desde o início do desenvolvimento. A declaração de Lula aponta nessa direção e indica que o tema deve ocupar espaço nas discussões sobre orçamento e política industrial dos próximos anos, com possíveis impactos sobre financiamento público, pesquisa acadêmica e desenvolvimento de modelos nacionais.
O país já possui instrumentos nesse caminho. O Plano Brasileiro de Inteligência Artificial, lançado em 2024 com vigência até 2028, prevê aportes estimados em cerca de R$ 23 bilhões ao longo de quatro anos, concentrados em infraestrutura de computação, desenvolvimento de tecnologia e aplicações em setores como saúde, agroindústria e serviços públicos.
Na área de infraestrutura de processamento, o Brasil conta com o supercomputador Santos Dumont, instalado no Laboratório Nacional de Computação Científica e usado em pesquisas de alto desempenho. O desafio apontado no debate público é transformar essa base em capacidade para treinar grandes modelos de linguagem em território nacional, etapa que exige investimento pesado em processadores e energia.
Em ano eleitoral, o assunto ganha dimensão de campanha. Ao colocar a independência tecnológica no centro do discurso sobre o futuro do país, o presidente transforma a política de inteligência artificial em tema de disputa eleitoral, e a soberania digital passa a ocupar espaço ao lado de pautas tradicionais como economia e segurança.
Para quem trabalha com tecnologia no Brasil, o recado tem alcance direto. A defesa de modelos nacionais abre discussão sobre capacitação de profissionais, compra de equipamentos e construção de bases de dados em português, elementos necessários a qualquer estratégia de autonomia em inteligência artificial.
A declaração de Lula resume um dilema enfrentado por governos de vários países: equilibrar o uso imediato das tecnologias estrangeiras disponíveis com a construção gradual de capacidade própria. A resposta dada pelo presidente aposta na segunda via.
Nos termos da fala presidencial, o objetivo é que o Brasil tenha inteligência artificial sem depender de Pequim ou de Washington. O debate sobre como chegar lá, incluindo custos, prazos e prioridades, passa a integrar a campanha eleitoral e o desenho das políticas de ciência e tecnologia dos próximos anos.