Flock enfrenta críticas após casos de uso indevido por policiais nos Estados Unidos
A Flock, empresa norte-americana de tecnologia voltada para a segurança pública, anunciou recentemente mudanças em sua plataforma de reconhecimento de placas de veículos após uma série de denúncias de uso abusivo por parte de agentes policiais. A companhia opera uma rede com cerca de 120 mil leitores automáticos de placas espalhados pelos Estados Unidos e tem se tornado alvo de intensos debates sobre privacidade e vigilância em massa.
As alterações foram divulgadas na última quinta-feira e têm como objetivo impedir que oficiais utilizem a ferramenta para fins ilegais ou ilegítimos, incluindo o stalking, prática de perseguir e assediar pessoas de forma reiterada. O contexto envolve uma reportagem do Washington Post que identificou 50 casos nos quais policiais fizeram uso indevido de sistemas da Flock e de empresas concorrentes. Em um dos episódios mais graves, uma mulher no estado de Wisconsin afirmou que seu ex-namorado, que era policial, pesquisou o carro dela 179 vezes na plataforma. Em outro caso, uma mulher era perseguida pelo próprio chefe de polícia da região, sem que houvesse nenhuma autoridade superior para quem ela pudesse denunciar a situação.
Entre as novas práticas implementadas pela empresa estão a adoção de softwares capazes de identificar padrões anormais de pesquisa e a exigência de que os agentes informem um número de caso criminal antes de realizar qualquer consulta. A proposta é garantir que cada busca tenha uma justificativa formal e possa ser rastreada posteriormente. A medida, no entanto, apresenta fragilidades significativas. A própria Flock confirmou à MIT Technology Review que não verifica a autenticidade dos números de caso informados, o que permite que oficiais simplesmente inventem códigos para acessar os dados sem qualquer vínculo real a uma investigação.
As mudanças também não respondem às preocupações mais amplas levantadas por organizações de defesa das liberdades civis e da privacidade. Esses grupos argumentam que a Flock transformou uma ferramenta originalmente vendida como auxiliar no combate à criminalidade em uma estrutura de vigilância massiva, capaz de monitorar os deslocamentos de qualquer cidadão. As críticas já produzem efeitos concretos. Algumas cidades norte-americanas cancelaram contratos com a empresa, enquanto estados tentam aprovar leis para restringir ou proibir completamente o uso de leitores automáticos de placas.
Apesar das polêmicas, surgiram argumentos em defesa da Flock baseados na premissa de que, se as câmeras ajudam a resolver crimes, os benefícios justificariam a coleta de dados. Defensores costumam citar casos como o resgate de crianças sequestradas para demonstrar a utilidade do sistema. A reportagem da MIT Technology Review, no entanto, questiona esse raciocínio e propõe uma reflexão mais profunda sobre o tipo de sistema de combate ao crime que a empresa escolheu construir. A rede funciona da maneira atual devido a uma série de decisões deliberadas sobre quais informações coletar, quem pode consultá-las, por quanto tempo armazená-las e com quem compartilhá-las. Essas definições determinam o equilíbrio entre segurança e liberdades civis embutido na tecnologia.
O texto destaca alternativas possíveis dentro do próprio modelo da Flock. Em vez de aceitar números de caso sem verificação, o sistema poderia exigir códigos que efetivamente correspondam aos registros das delegacias, criando uma salvaguarda mais robusta e um rastro de auditoria mais confiável. Para casos urgentes como sequestros ou desaparecimentos, as consultas poderiam ser vinculadas a alertas ativos, permitindo acesso ampliado a dados de cidades vizinhas apenas em situações emergenciais. Outra possibilidade envolve limitar a retenção e o compartilhamento de informações ao período em que elas realmente são úteis para investigações. Segundo a própria empresa, 90% das pesquisas ocorrem dentro de uma semana após o incidente, o que sugere que manter dados por meses ou anos pode ser desproporcional. A Flock chegou a alterar recentemente o tempo recomendado de retenção para sete dias, mas na prática as agências podem manter as informações pelo período que desejarem.
A questão é sensível para o modelo de negócios da companhia. Os leitores de placas existem desde a década de 1990, usados inicialmente para pedágios e multas de trânsito. O diferencial da Flock, avaliada recentemente em 8 bilhões de dólares, está justamente em transformar essas câmeras em uma grande rede interconectada capaz de oferecer às polícias uma visão ampla sobre dados que ultrapassam fronteiras municipais. Reduzir o alcance da vigilância ameaça diretamente essa proposta de valor. O diretor-presidente da Flock, Garrett Langley, afirmou que provavelmente sempre terá uma visão diferente da defendida pela ACLU, organização americana de defesa das liberdades civis.
O cenário atual sugere que a empresa pode ser forçada a repensar seus limites. Com cidades cancelando contratos, algumas migrando para concorrentes e outras aguardando decisões da população sobre como regulamentar a tecnologia, a tendência é que as comunidades passem a definir localmente os termos do acordo entre combate ao crime e respeito à privacidade.