Plataformas começam a recuar diante do crescimento da rejeição ao conteúdo gerado por inteligência artificial

A reação negativa contra o chamado "AI slop" — expressão usada para descrever conteúdo de baixa qualidade gerado de forma massiva por inteligência artificial — finalmente começa a produzir efeitos concretos. Um número crescente de sites e aplicativos passou a adotar ferramentas e políticas para sinalizar, rotular e até banir materiais criados por IA, em resposta ao esgotamento dos usuários com a enxurrada de publicações sintéticas que invade a internet.

Rejeição em Massa: Plataformas Recuam diante do Avanço do Conteúdo de Baixa Qualidade Gerado por Inteligência Artificial - Imagem complementar

Embora essa rejeição venha se acumulando há alguns anos, mais empresas passaram a tratar a questão de forma direta. O LinkedIn, por exemplo, adicionou um botão chamado "parece AI slop" que permite aos usuários denunciar publicações geradas por inteligência artificial, mesmo a plataforma ainda hospedando diversos recursos de IA generativa. O Snapchat, por sua vez, anunciou que vídeos inteiramente produzidos por IA não serão mais elegíveis para aparecer em seu feed de descoberta, espaço dedicado a destacar conteúdos populares. Já o Substack incorporou recentemente uma ferramenta de detecção de IA para fiscalizar textos de seus escritores, em parceria com a empresa Pangram.

PUBLICIDADE

O Pinterest também tem enfrentado queixas frequentes de usuários incomodados com a presença massiva de conteúdo sintético em seu feed. Em abril, após receber reclamações, a plataforma introduziu os chamados "Gen AI Labels", rótulos que informam quando um pin foi modificado por inteligência artificial. Em outubro, foram lançadas ferramentas adicionais que permitem aos próprios usuários controlar a quantidade de conteúdo gerado por IA que desejam visualizar.

A indústria da música também tem adotado medidas parecidas. O serviço de streaming Tidal bloqueou a monetização de faixas geradas por inteligência artificial. O Spotify, embora ainda não disponha de um recurso oficial de marcação, conta com iniciativas colaborativas criadas pelos próprios usuários para identificar músicas suspeitas. A plataforma francesa Deezer se comprometeu a remover faixas totalmente geradas por IA de suas recomendações algorítmicas, depois de revelar, em setembro, que esse tipo de envio já representava 28% das submissões diárias, algo em torno de 30 mil músicas por dia. O TikTok, por sua vez, anunciou um sistema de detecção voltado para flagrar spam gerado por inteligência artificial e passou a permitir que usuários reduzam a quantidade desse tipo de conteúdo em seus feeds.

A pressão também chegou ao campo regulatório. Na União Europeia, novas regras dentro da Lei de Inteligência Artificial entraram em vigor exigindo que qualquer conteúdo promocional gerado ou manipulado por IA seja claramente identificado. Nos Estados Unidos, senadores apresentaram uma proposta bipartidária conhecida como AI Labeling Act, que busca obrigar plataformas a rotular de forma visível materiais sintéticos. A medida reflete uma preocupação recorrente: a proliferação de geradores de imagem e vídeo tem ampliado o medo da população em relação à desinformação e à dificuldade de distinguir o que é real do que foi produzido por máquina.

Fora das redes sociais, o repúdio ao uso de IA generativa em materiais de marketing também tem ficado evidente. Grandes marcas, como McDonald's e Coca-Cola, enfrentaram reação negativa do público ao incorporar visuais gerados por inteligência artificial em campanhas publicitárias. O efeito não se restringe às grandes corporações: até mesmo pequenos comércios locais têm recebido críticas por divulgar eventos com cartazes produzidos por IA.

A raiz dessa rejeição, segundo os próprios usuários, está ligada a uma sensação de falta de consentimento. Muitas pessoas afirmam que nunca autorizaram que suas interações online fossem coletadas em larga escala para treinar modelos de inteligência artificial. Relatos frequentes mencionam a surpresa ao descobrir que plataformas como Instagram passaram a permitir deepfakes — vídeos ultrarrealistas que trocam o rosto de uma pessoa pelo de outra — em contas comuns, ou que o Google passou a exibir respostas geradas por IA no topo dos resultados de busca sem aviso prévio. A sensação geral é a de que recursos de IA generativa foram inseridos em todos os cantos do software sem qualquer pedido de aprovação.

O termo "AI slop" se popularizou justamente para descrever esse tipo de material sintético de baixa qualidade, produzido em escala industrial, que invade desde vídeos e livros até postagens em plataformas como o Medium. Críticos, como o escritor e ativista Cory Doctorow, vêm usando o conceito de "enshittification" — deterioração — para descrever o processo de degradação gradual das plataformas digitais, causado pela busca incessante por lucro em detrimento da experiência do usuário. Esse cenário ajuda a explicar por que empresas de diferentes segmentos passaram a reagir, ainda que de maneira tímida, à saturação de conteúdo artificial que domina a internet.

Mesmo com os avanços recentes, especialistas e usuários permanecem atentos. O fato de grandes plataformas terem começado a reconhecer publicamente o problema não significa que as medidas adotadas sejam suficientes para resolver uma questão que envolve tanto a qualidade do conteúdo disponível quanto os rumos da própria relação entre tecnologia e sociedade nos próximos anos.