O Brasil registrou mais de 34 bilhões de tentativas de golpes digitais em um único ano, segundo um estudo que traça o cenário da criminalidade cibernética no país. O número coloca o país entre os mais visados por criminosos que atuam no ambiente virtual, com a agravante de que a inteligência artificial passou a ser usada como ferramenta para aumentar a efetividade das fraudes. A pesquisa revela que oito em cada dez brasileiros adultos já foram alvo de ao menos uma tentativa de golpe, o que demonstra a abrangência do problema e a dificuldade de escapar completamente desse tipo de crime.

Os dados indicam que, em média, cada pessoa no país foi exposta a cerca de 202 tentativas de fraude no último ano. Esse volume reflete a escalada da automação nas operações dos criminosos, que conseguem disparar mensagens, e-mails falsos e ligações em escala massiva, atingindo milhões de usuários simultaneamente. A popularização da inteligência artificial entre agentes mal-intencionados amplia ainda mais essa capacidade, permitindo a criação de conteúdos fraudulentos mais convincentes e difíceis de identificar à primeira vista.

Brasil sofre 34 bilhões de tentativas de golpes digitais por ano - Imagem complementar

A pesquisa evidencia que os criminosos têm se concentrado em vítimas recorrentes, ou seja, pessoas que já foram alvo de tentativas anteriores. Ao coletar dados vazados em ataques anteriores, os fraudadores conseguem construir perfis detalhados dos alvos e usar a inteligência artificial para personalizar os golpes de acordo com o histórico, os interesses e o perfil de consumo de cada indivíduo. Essa abordagem aumenta significativamente as chances de sucesso da fraude, pois as mensagens fraudulentas passam a carregar elementos que as tornam mais críveis.

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A sofisticação dos ataques impulsionada pela inteligência artificial se manifesta de diversas formas. É possível gerar textos com linguagem natural quase idêntica à de instituições bancárias, operadoras de telefonia e órgãos governamentais, dificultando que o cidadão comum consiga distinguir uma comunicação legítima de uma fraude. Também há relatos do uso de clonagem de voz, em que a IA reproduce a voz de conhecidos ou parentes da vítima para solicitar transferências bancárias ou outras ações prejudiciais.

O cenário descrito pelo estudo representa um desafio crescente para a segurança digital no Brasil. Com o aumento da digitalização dos serviços financeiros, do comércio eletrônico e das interações sociais por meios digitais, a superfície de ataque para os criminosos se expande continuamente. Cada novo canal de comunicação ou plataforma digital abre possibilidades para a execução de golpes, especialmente quando os usuários não adotam práticas adequadas de proteção de dados.

O volume de 34 bilhões de tentativas anuais também impõe um desafio operacional para as instituições responsáveis pela segurança cibernética no país. Bancos, empresas de tecnologia e órgãos de fiscalização precisam investir em sistemas de detecção de fraudes capazes de identificar padrões suspeitos em tempo real, muitas vezes empregando elas próprias tecnologias de inteligência artificial para combater os ataques. Essa dinâmica configura uma corrida tecnológica, em que tanto criminosos quanto instituições de segurança disputam a vantagem proporcionada pelas ferramentas de automação e aprendizado de máquina.

A personalização dos golpes, viabilizada pela inteligência artificial, representa uma mudança de paradigma em relação aos métodos tradicionais de fraude digital. Enquanto golpes mais antigos costumavam ser disparados de forma massiva e genérica, com mensagens idênticas enviadas a milhares de destinatários, os ataques atuais podem ser adaptados individualmente. Isso significa que dois alvos distintos podem receber mensagens completamente diferentes, cada uma ajustada ao seu perfil específico, o que reduz a eficácia de filtros antispam e de outras barreiras automatizadas de segurança.

O fato de oito em cada dez brasileiros adultos já terem sido alvo de tentativas de golpe mostra que praticamente nenhum usuário conectado está imune. A exposição massiva também pode gerar um efeito de alerta reduzido, em que o cidadão passa a conviver com a constante presença de tentativas de fraude e pode baixar a guarda diante de ataques mais sofisticados. Esse cansaço ou acomodação é uma vulnerabilidade adicional que os criminosos exploram.

A média de 202 tentativas por pessoa por ano equivale a mais de uma tentativa de golpe a cada dois dias para cada brasileiro adulto. Esse ritmo reflete não apenas o volume de operações criminosas, mas também a persistência dos atacantes, que frequentemente tentam múltiplas abordagens contra o mesmo alvo até conseguir o resultado desejado ou descartar aquela vítima em favor de outra.

Diante desse quadro, o estudo reforça a necessidade de campanhas de conscientização digital dirigidas à população. O reconhecimento dos principais métodos utilizados pelos criminosos, como o phishing (técnica de fraude em que o criminoso se passa por uma entidade confiável para obter dados pessoais e financeiros), a verificação de identidades em comunicações suspeitas e o uso de autenticação em múltiplos fatores são medidas que podem reduzir o índice de sucesso das fraudes.

O uso da inteligência artificial como instrumento de criminalidade coloca o Brasil diante de um desafio que tende a se agravar à medida que essas tecnologias se tornam mais acessíveis. A barreira de entrada para a criação de conteúdos fraudulentos sofisticados diminuiu com o avanço das ferramentas de geração de texto, imagem e áudio baseadas em IA, o que amplia o universo de agentes capazes de conduzir ataques em larga escala.

Os números do estudo servem como alerta sobre a dimensão que a criminalidade digital atingiu no país e sobre o papel central que a inteligência artificial passou a desempenhar nesse cenário. A combinação de volume massivo de tentativas, personalização dos ataques e persistência dos criminosos configura um ambiente de risco elevado que demanda respostas coordenadas entre setor privado, poder público e usuários individuais.