Os investimentos em infraestrutura de inteligência artificial provocaram uma queda expressiva no fluxo de caixa livre das quatro maiores empresas de tecnologia do mundo no segundo trimestre de 2026. Alphabet, Amazon, Meta e Microsoft destinaram volumes bilionários à construção de data centers e aquisição de chips, levando algumas delas a registrar caixa negativo pela primeira vez em anos. Apesar da apreensão inicial dos investidores, analistas de mercado avaliam que a demanda corporativa por soluções de IA é genuína e o retorno sobre esses investimentos deve se concretizar entre dois e três anos.

A Alphabet, controladora do Google, encerrou o segundo trimestre com fluxo de caixa negativo de US$ 5,9 bilhões, marcando a primeira vez desde sua abertura de capital, em 2004, que a empresa queima caixa. A Amazon registrou caixa negativo de US$ 7,6 bilhões, interrompendo uma sequência de três anos de fluxo positivo. A Meta, dona do Facebook, Instagram e WhatsApp, viu seu caixa encolher 91% na comparação anual, terminando junho com US$ 784 milhões. A Microsoft, por sua vez, fechou o quarto trimestre fiscal com US$ 19,6 bilhões, uma queda de 23% frente ao mesmo período do ano anterior.

Gastos com IA reduzem caixa das big techs, mas analistas preveem retorno rápido - Imagem complementar

O economista-chefe da Avenue, William Alves, observa que o crescimento das receitas de serviços de nuvem e inteligência artificial das três maiores provedoras confirma que a demanda é real e está em expansão. Segundo ele, as próprias empresas relatam dificuldade em atender a todo o volume de pedidos, o que justifica a intensificação dos investimentos. Para Alves, as demonstrações de receita foram suficientes para afastar a tese de que o setor de IA estaria formando uma bolha especulativa.

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Os números de faturamento das divisões de nuvem reforçam essa leitura. A Amazon Web Services, líder do mercado de computação em nuvem, alcançou US$ 42,2 bilhões em receita no segundo trimestre, um avanço de 36,7% na base anual. A plataforma Azure, da Microsoft, segundo colocado no setor, registrou alta de 43% nas vendas no quarto trimestre fiscal. Ao longo do ano fiscal completo, a divisão de nuvem da Microsoft ultrapassou US$ 100 bilhões em receita, conforme destacou o executivo-chefe da empresa, Satya Nadella, em comunicado aos investidores.

O Google Cloud, terceiro colocado no ranking de serviços de nuvem, apresentou o maior salto percentual entre as concorrentes. As vendas somaram US$ 24,8 bilhões entre abril e junho, superando em 82% o resultado do mesmo período do ano anterior. O analista de tecnologia global do Itaú BBA, Stephano Gabriel, projeta continuidade nesse ritmo. Ele observa que o segmento de Google Cloud passou de um crescimento anual de 40% no quarto trimestre de 2025 para mais de 80% no segundo trimestre de 2026 e estima que a aceleração pode superar 100% ao ano até o final do calendário.

O executivo-chefe da Amazon, Andy Jassy, informou em conferência com analistas que a empresa elevou sua projeção de gastos em infraestrutura de US$ 200 bilhões para US$ 220 bilhões neste ano. Mesmo com esse aumento, Jassy afirmou que a companhia não terá capacidade suficiente para atender toda a demanda prevista para 2026, sinalizando que o ritmo de investimento se manterá em 2027. O dirigente detalhou ainda que os data centers oferecem mais de 30 anos de monetização sem necessidade de capital adicional e que servidores e equipamentos de rede atingem o ponto de equilíbrio em menos de três anos.

A lógica de retorno explicada por Jassy se estende às demais provedoras de serviços de nuvem e IA em larga escala, conhecidas como hyperscalers. José Medeiros, sócio do fundo Global Tech da São Pedro Capital, aponta que o modelo de negócio se paga dentro de dois a três anos, incluindo a aquisição de unidades de processamento gráfico, as GPUs, e a construção dos data centers. Como os contratos com clientes costumam ter duração mínima de cinco anos e uma GPU pode operar por até dez anos, a margem incremental justifica o elevado gasto de capital diante dos investidores.

A demanda corporativa por IA deve continuar aquecida. A analista da Legacy Capital, Letícia Tonholo, projeta que a receita de inteligência artificial da AWS, que alcançou US$ 25 bilhões no segundo trimestre, dobrará até o final do ano. Ela argumenta que a adoção de soluções de IA pelas empresas ainda está em estágio inicial, o que sustenta a perspectiva de crescimento prolongado.

As declarações dos dirigentes e os resultados trimestrais foram suficientes para reacalmar o mercado. Na sexta-feira (31), as ações da Amazon fecharam em alta de 15,32% na bolsa eletrônica Nasdaq. A Alphabet acompanhou a recuperação, com valorização de 6,88%. A Microsoft havia registrado alta superior a 15% logo após a divulgação do balanço na quarta-feira (29) e encerrou a sexta com valorização adicional de 3,02%.

A Meta, entretanto, enfrentou a reação mais negativa do mercado entre as gigantes de tecnologia. As ações caíram mais de 10% após a empresa apresentar lucro por ação abaixo das estimativas dos analistas e anunciar novo aumento na projeção de gastos com infraestrutura computacional. O resultado trimestral foi impactado por despesas de US$ 2,4 bilhões com processos judiciais e US$ 1,18 bilhão em indenizações. Em maio, a empresa havia demitido cerca de 8 mil funcionários, equivalente a 10% de sua equipe global.

A empresa de Mark Zuckerberg elevou a estimativa de gasto de capital anual para uma faixa entre US$ 130 bilhões e US$ 145 bilhões para sustentar a expansão de data centers voltados à IA. Analistas avaliam que a entrada da Meta na comercialização de capacidade computacional excedente e os avanços de IA na otimização de anúncios dão sentido a essa elevação. Medeiros, da São Pedro Capital, contrasta o cenário atual com o de 2022, quando a empresa investia pesadamente no metaverso e sofria perdas significativas de receita após mudanças nas políticas de privacidade da Apple.

A Apple, por sua vez, ficou em uma posição singular nesse movimento. Sem operar serviços de nuvem em larga escala, a fabricante do iPhone manteve um fluxo de caixa positivo, mas perdeu atratividade diante da mudança de percepção dos investidores. As ações da empresa caíram 7,35% na sexta-feira, mesmo após a companhia ter ultrapassado o valor de mercado de US$ 5 trilhões no início da semana. O desempenho decepcionou por não atingir as estimativas de crescimento de receita na China e no segmento de serviços, que engloba assinaturas e armazenamento em nuvem.

A Apple também enfrenta pressão sobre suas margens de lucro devido à inflação no mercado de chips de memória. Gabriel, do Itaú BBA, observa que os fornecedores de componentes têm priorizado a cadeia de data centers em detrimento dos pedidos da Apple, um cenário diferente do que ocorria historicamente. Esse desequilíbrio pode encarecer a produção de dispositivos premium e reduzir a competitividade da empresa em um setor cada vez mais influenciado pela dinâmica de suprimentos para inteligência artificial.

O conjunto dos resultados trimestrais indica que as maiores empresas de tecnologia continuarão a destinar somas volumosas à infraestrutura de inteligência artificial nos próximos trimestres. A diferença em relação a ciclos anteriores de investimento é que, desta vez, as receitas associadas a esses gastos já estão crescendo em ritmo acelerado, com contratos de longo prazo que garantem fluxo de receita previsível. Para os analistas ouvidos pelo mercado, essa combinação deve sustentar a confiança dos investidores e pavimentar o retorno financeiro desses investimentos em um horizonte de dois a três anos.