O cineasta gaúcho Davi Pretto lança "Futuro Futuro", filme que articula a relação entre inteligência artificial, ansiedade climática e o trauma causado pelas enchentes que devastaram o Rio Grande do Sul em 2024. A obra propõe uma reflexão inédita no cinema brasileiro ao usar a catástrofe ambiental como ponto de partida para questionar o papel da tecnologia na sociedade contemporânea e a resposta humana diante de crises cada vez mais frequentes.

O estado do Rio Grande do Sul viveu, em maio de 2024, o maior desastre climático de sua história. Enchentes históricas alagaram centenas de municípios, deslocaram mais de meio milhão de pessoas e causaram dezenas de mortes. O evento expôs de forma dramática a vulnerabilidade de comunidades inteiras às mudanças climáticas e inaugurou um período de profunda instabilidade emocional e econômica na região, com efeitos que se estendem até hoje.

Filme Futuro Futuro une IA e enchentes do RS em reflexão sobre crise climática - Imagem complementar

Pretto, que já havia dirigido obras como "Castanho" e "Reino Animal", reconhecidas no circuito de festivais, constrói em "Futuro Futuro" uma narrativa que escapa dos formatos convencionais do documentário e da ficção. O filme parte da experiência direta com a destruição no Sul do Brasil para abrir um debate mais amplo sobre como a humanidade processa, ou deixa de processar, as crises que se acumulam no presente.

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A inteligência artificial aparece na obra não apenas como tema, mas como elemento estrutural da narrativa. Pretto utiliza recursos de IA generativa — tecnologias capazes de criar imagens, textos e sons a partir de comandos — como ferramenta estética e argumentativa. A sobreposição entre imagens reais da devastação e elementos gerados artificialmente cria uma camada de estranhamento que convida o espectador a refletir sobre a fronteira entre o vivido e o simulado, entre o trauma real e sua representação tecnológica.

O título "Futuro Futuro" sugere a duplicação de um tempo que ainda não chegou, mas que já se faz presente nas catástrofes e nas tecnologias que prometem antecipá-lo ou resolvê-las. A repetição evoca a sensação de que o futuro deixou de ser uma promessa distante e se converteu em uma urgência imediata, materializada tanto nas águas que invadiram cidades gaúchas quanto nos algoritmos que moldam decisões cotidianas.

O diretor defende que a dúvida é o instrumento mais necessário neste momento de aceleração tecnológica e degradação ambiental. Em vez de aceitar passivamente narrativas otimistas sobre a capacidade da tecnologia de solucionar problemas complexos, Pretto propõe que questionar, hesitar e investigar são atitudes essenciais. "A gente precisa da dúvida", afirma o cineasta, sintetizando o eixo filosófico do filme.

A ansiedade climática — termo que descreve o medo e a angústia persistentes associados às mudanças climáticas e seus impactos — é outro eixo central da obra. Pretto retrata como populações diretamente afetadas por desastres ambientais convivem com a incerteza sobre o futuro e com a sensação de que eventos extremos se tornaram parte da rotina. A IA, nesse contexto, surge como dupla face: por um lado, promete previsões meteorológicas mais precisas e sistemas de alerta mais eficazes; por outro, alimenta a fantasia de que soluções tecnológicas podem substituir a ação política e a mobilização social.

O filme também dialoga com um debate global sobre os limites da inteligência artificial. Enquanto grandes empresas de tecnologia aceleram o desenvolvimento de modelos cada vez mais sofisticados, crescem as preocupações sobre desinformação, vigilância, perda de privacidade e concentração de poder. No Brasil, a regulação da IA ainda está em construção, e obras como "Futuro Futuro" contribuem para ampliar o debate para além dos círculos técnicos e legislativos.

A escolha de abordar as enchentes do Rio Grande do Sul confere ao filme uma dimensão profundamente local, mas com ressonância universal. Catástrofes climáticas de intensidade crescente têm ocorrido em diversas partes do mundo, e a pergunta sobre como a tecnologia pode ou não ajudar a mitigar essas crises é compartilhada por sociedades em vários continentes. Pretto articula essa tensão entre o particular e o universal sem oferecer respostas fáceis.

"Futuro Futuro" chega em um momento de efervescência da produção audiovisual brasileira que investiga os impactos da tecnologia na vida social. O filme se diferencia por recusar tanto o tecnopessimismo quanto o entusiasmo acrítico, optando por uma postura interrogativa que coloca o espectador na posição de juiz.

A obra de Davi Pretto representa um esforço relevante de conectar duas realidades que frequentemente são tratadas separadamente: a experiência concreta do desastre ambiental e o debate abstrato sobre inteligência artificial. Ao unir esses universos, "Futuro Futuro" convida a um exercício de pensamento crítico que pode ser especialmente valioso para profissionais que trabalham com tecnologia, ao lembrar que o desenvolvimento técnico não ocorre no vácuo, mas em um mundo marcado por desigualdades profundas e vulnerabilidades crescentes.

O filme reforça, sobretudo, que diante de catástrofes reais e de promessas tecnológicas ambiciosas, a postura mais necessária pode não ser a adesão incondicional nem a rejeição automática, mas a capacidade de manter a dúvida viva como motor de reflexão e ação.