Janet Yellen afirma que IA tem impulsionado inflação mais do que controlado
Durante painel realizado no evento Expert XP, a ex-secretária do Tesouro dos Estados Unidos e ex-presidente do Federal Reserve (o banco central norte-americano), Janet Yellen, fez uma declaração que contraria a narrativa predominante sobre os efeitos econômicos da inteligência artificial. Segundo ela, ao menos até o momento, a tecnologia tem contribuído mais para o aumento da inflação do que para o seu controle.
O posicionamento de Yellen chama atenção justamente porque vai na direção oposta do consenso que se formou no mercado financeiro nas últimas décadas e, de forma mais intensa, nos últimos anos com a popularização de modelos generativos. A expectativa predominante entre executivos, investidores e economistas é que a inteligência artificial funcione como um mecanismo de elevação da produtividade, permitindo que empresas e economias inteiras consigam produzir mais com menos recursos. Esse ganho de eficiência, em tese, reduziria pressões sobre preços e, consequentemente, sobre a inflação, que é o índice geral de variação dos preços na economia.
Yellen, no entanto, apresentou uma leitura diferente durante sua participação no painel. Para ela, a inteligência artificial está, na prática, exercendo um efeito inflacionário maior do que desinflacionário neste momento. A declaração foi feita em um contexto de debates intensos sobre os rumos da política monetária nos Estados Unidos e no mundo, justamente num período em que bancos centrais ainda lidam com os efeitos residuais da alta de preços observada nos últimos anos.
A fala de Yellen ganhou relevância adicional por causa de sua trajetória. Ela ocupou o comando do Federal Reserve entre 2014 e 2018 e, posteriormente, assumiu o cargo de secretária do Tesouro dos Estados Unidos durante o governo Biden, entre 2021 e 2025. Essa experiência em duas das principais instituições econômicas do mundo confere peso significativo às suas avaliações sobre temas como inflação, produtividade e impacto de novas tecnologias sobre a economia.
A discussão proposta pela ex-secretária do Tesouro não significa que os ganhos de produtividade prometidos pela inteligência artificial não existam ou não se materializarão no futuro. O ponto levantado por Yellen diz respeito ao momento atual e à forma como a tecnologia tem sido incorporada pelas empresas. Segundo a avaliação dela, os efeitos práticos observados até agora apontam em uma direção diferente daquela projetada pelo otimismo predominante do mercado.
Esse tipo de divergência entre formuladores de política econômica e expectativas do mercado não é incomum, especialmente em períodos de transformação tecnológica acelerada. Historicamente, novos paradigmas tecnológicos costumam gerar entusiasmo inicial sobre ganhos de eficiência, mas os efeitos concretos sobre preços, produtividade e estrutura produtiva levam tempo para se manifestar e nem sempre ocorrem na velocidade ou na direção esperada.
A declaração de Yellen também se conecta a um debate mais amplo sobre o real impacto da inteligência artificial na economia real. Enquanto parte do mercado trata a IA como uma ferramenta capaz de reduzir custos operacionais e acelerar processos, outros analistas apontam que a adoção da tecnologia envolve investimentos elevados em infraestrutura, energia e mão de obra especializada, o que pode gerar pressões de custo em determinados setores.
O fato de a fala ter ocorrido em um evento como o Expert XP, que reúne investidores, executivos e especialistas do mercado financeiro, reforça a importância do tema. A percepção de que a inteligência artificial pode estar contribuindo para a inflação neste momento adiciona uma camada de cautela às projeções que tratam a tecnologia como solução quase automática para problemas estruturais da economia, como baixa produtividade e crescimento estagnado.
Mesmo com a ressalva apresentada por Yellen, a inteligência artificial segue no centro das estratégias de grandes empresas e governos ao redor do mundo. A diferença é que, segundo a visão trazida por ela no painel, os efeitos inflacionários observados até agora exigem uma análise mais cuidadosa antes que se consolide a tese de que a tecnologia será, inevitavelmente, uma aliada no combate à alta de preços.