O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) revelou que o uso de Inteligência Artificial por empresas industriais brasileiras cresceu 163,2% entre 2022 e 2024. Os dados fazem parte da Pesquisa de Inovação Semestral (PINTEC Semestral) 2024, divulgada nesta quarta-feira, 24 de setembro, e apontam uma acelerada transformação digital no setor produtivo nacional.

O levantamento, conduzido em parceria com a Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI) e a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), ouviu aproximadamente 10,1 mil empresas industriais. Desse total, 9.054 afirmaram utilizar ao menos uma tecnologia digital avançada em suas operações.

Uso de IA na indústria brasileira cresce 163% em dois anos, mostra IBGE - Imagem complementar

A proporção de empresas que adotaram Inteligência Artificial passou de 16,9% em 2022 para 41,9% em 2024, um salto de 25 pontos percentuais. Em números absolutos, o contingente de companhias que incorporaram a tecnologia saltou de 1.619 para 4.261 no período. Essa expansão representa uma taxa de crescimento de 147,9% na proporção de empresas usuárias de IA.

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A pesquisa indica que 89% das empresas industriais brasileiras utilizaram alguma tecnologia digital avançada em 2024, ante 84,9% em 2022. O conceito abrange ferramentas como Análise de Big Data, Computação em Nuvem, Inteligência Artificial, Internet das Coisas, Manufatura Aditiva — conhecida como impressão 3D — e Robótica.

A Computação em Nuvem mantém a liderança entre as tecnologias mais adotadas, presente em 77,2% das empresas. Em seguida aparecem Internet das Coisas (50,3%), Robótica (30,5%), Análise de Big Data (27,8%) e Manufatura Aditiva (20,3%). A Inteligência Artificial, com 41,9%, ocupa a segunda posição no ranking de adoção.

As áreas que mais aplicaram IA nas empresas foram administração (87,9%), comercialização (75,2%) e desenvolvimento de projetos de produtos, processos e serviços (73,1%). Organizações com mais de 500 trabalhadores concentram os maiores índices de utilização dessas tecnologias.

Segundo Flávio Peixoto, gerente de pesquisas sistemáticas do IBGE, o avanço está principalmente ligado ao desenvolvimento das Inteligências Artificiais generativas — sistemas capazes de criar novos conteúdos, como textos e imagens, a partir de comandos dos usuários. O ChatGPT, assistente de IA da empresa OpenAI, chegou ao Brasil em novembro de 2022, e a pesquisa referente àquele ano foi realizada entre abril e junho de 2023, em um momento inicial de disseminação da tecnologia no ambiente corporativo.

Já os dados coletados entre abril e junho de 2025, referentes ao ano de 2024, refletem um cenário em que as empresas tiveram dois anos para explorar e amadurecer o uso dessas ferramentas. A pesquisa não especifica quais soluções de IA foram mais utilizadas, mas Peixoto ressalta que o ecossistema vai muito além de assistentes conversacionais.

Entre as aplicações citadas pelo pesquisador estão mineração de dados, reconhecimento de fala e imagem, geração de linguagem natural, aprendizado de máquina, automação de processos e fluxos de trabalho e, particularmente no ambiente industrial, manutenção preditiva. Essa última permite antecipar falhas em processos produtivos, usando IA para tomada de decisões autônomas e controle de máquinas.

A pesquisa traz ainda um recorte setorial. Os maiores índices de adoção de IA foram registrados na fabricação de equipamentos de informática, eletrônicos e ópticos (72,3%), máquinas e materiais elétricos (59,3%) e produtos químicos (58,0%). Na outra ponta, aparecem as indústrias de fumo (22,9%), couro (20,7%) e serviços de manutenção, reparação e instalação de máquinas (19,2%).

Os benefícios percebidos pelas empresas que adotaram tecnologias digitais avançadas são expressivos. O aumento da eficiência lidera o ranking, citado por 90,3% das companhias. Em seguida aparecem maior flexibilidade em processos (89,5%), melhoria no relacionamento com clientes e fornecedores (85,6%), maior eficácia no atendimento ao mercado (82,9%) e ganho de capacidade para desenvolver produtos ou serviços novos (74,7%).

Apesar dos avanços, a incorporação dessas ferramentas ainda esbarra em obstáculos relevantes. Entre as empresas que já utilizam tecnologias digitais, os principais desafios são os altos custos das soluções (78,6%), a falta de pessoal qualificado internamente (54,2%), riscos de segurança e privacidade (47,2%), oferta limitada de profissionais no mercado (46,8%) e dificuldade de integração entre áreas (45,1%).

Já entre as companhias que ainda não adotaram nenhuma dessas tecnologias, os entraves são semelhantes. Os custos elevados aparecem em primeiro lugar (74,3%), seguidos pela falta de pessoal qualificado (60%), pela ausência de necessidade identificada (54%), pela escassez de recursos financeiros (50,8%) e pela limitada oferta de programas de apoio e incentivo (48,5%).

A pesquisa revelou ainda que a modalidade de teletrabalho recuou no período. Em 2024, 43% das empresas industriais brasileiras adotavam o trabalho remoto, contra 47,8% em 2022. Apesar da queda, o teletrabalho segue concentrado em áreas estratégicas, como administração (94,6%), comercialização (85%) e desenvolvimento de projetos (66,4%). Empresas de maior porte mantêm as maiores taxas de adesão ao modelo, embora a redução tenha ocorrido em todas as faixas de tamanho.

Os dados do IBGE demonstram que a digitalização do parque industrial brasileiro está em curso, mas ainda não é uniforme. A transformação exige investimentos sustentados em capacitação profissional, infraestrutura tecnológica e políticas de incentivo para que o conjunto do setor industrial possa aproveitar integralmente o potencial dessas tecnologias.