A Coreia do Sul anunciou nesta segunda-feira (29) uma estratégia industrial de grande escala centrada em semicondutores e inteligência artificial, com investimentos que ultrapassam 576 trilhões de wons, equivalentes a cerca de US$ 373 bilhões. O plano, conduzido sob a liderança do presidente Lee Jae Myung, tem como objetivo consolidar a posição do país como potência global nos setores de chips e sistemas de IA, ao mesmo tempo em que busca promover o desenvolvimento econômico de regiões fora da área metropolitana de Seul.

A iniciativa conta com a participação direta de duas das maiores fabricantes de chips de memória do mundo: a Samsung Electronics e a SK Hynix. Ambas ocupam papel central na cadeia global de semicondutores, especialmente no segmento de memórias de alta largura de banda, conhecidas pela sigla HBM, componentes essenciais para o funcionamento de sistemas avançados de inteligência artificial.

Coreia do Sul anuncia plano de US$ 373 bi com Samsung e SK Hynix para IA e chips - Imagem complementar

Lee classificou o conjunto de medidas como um grande salto adiante para o país, estruturado em três pilares: semicondutores, inteligência artificial aplicada a infraestrutura física e centros de dados. Em pronunciamento televisionado, o presidente afirmou que a Coreia do Sul precisa garantir os elementos centrais da inteligência artificial de forma mais rápida do que qualquer outra nação.

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As empresas Samsung e SK Hynix, juntamente com seus fornecedores, devem investir 800 trilhões de wons, aproximadamente US$ 518,3 bilhões, para construir duas novas fábricas de semicondutores cada uma na região sudoeste do país. O anúncio foi feito pelo ministro da Indústria, Kim Jung-kwan, que destacou a necessidade de ampliar a capacidade produtiva de forma acelerada.

A cidade de Gwangju e a província de Jeolla do Sul também deverão aportar entre 5 trilhões e 20 trilhões de wons nos projetos. Além disso, outros 81 trilhões de wons estão previstos para a construção de um polo de encapsulamento de chips na região de Chungcheong, próxima a Seul. O encapsulamento é uma etapa crítica na fabricação de semicondutores, que protege e conecta os chips aos circuitos eletrônicos.

Kim justificou a expansão citando que as instalações atualmente concentradas em Yongin e Pyeongtaek, na região metropolitana de Seul, já operam no limite de sua capacidade. Segundo o ministro, a demanda por semicondutores cresce em ritmo acelerado e exige a conclusão urgente dos polos de produção em construção, além de investimentos adicionais em larga escala, incluindo na região sudoeste.

O presidente Lee destacou que a região sudoeste do país possui ampla capacidade de geração de energia atualmente subutilizada, fator que tornaria a área adequada para abrigar grandes polos de fabricação de chips. Fábricas de semicondutores exigem volumes significativos de eletricidade e água para operar de forma contínua.

O governo também pretende dobrar a produção de memória dinâmica de acesso aleatório, conhecida como DRAM, nos próximos cinco anos. A DRAM é um tipo de memória utilizada em equipamentos eletrônicos como notebooks e smartphones. Os chips HBM, por sua vez, são fabricados pelo empilhamento de múltiplas camadas de DRAM, o que aumenta significativamente a densidade e a velocidade de processamento de dados. A meta é antecipar para meados da década de 2030 a construção de novas fábricas também na região metropolitana de Seul.

Durante o evento de anúncio, o presidente da Samsung Electronics, Jay Y. Lee, confirmou que a empresa escolheu a cidade de Gwangju como sede de seu novo polo de semicondutores. Já o presidente da SK Hynix, Chey Tae-won, informou que a companhia ainda precisa de mais tempo para definir o local exato de suas operações na região sudoeste e garantir as condições de infraestrutura necessárias.

Chey destacou que a construção de um polo de semicondutores é um processo demorado e complexo. Segundo ele, a empresa levou nove anos para criar seu polo em Yongin, e uma fábrica do gênero exige uma extensa área de terreno, fornecimento estável de energia e água, além de profissionais qualificados em larga escala.

A escolha da região sudoeste como destino dos investimentos gerou críticas por parte de políticos da oposição, que questionaram possíveis motivações políticas por trás da decisão. Na eleição presidencial de 2025, aproximadamente 85% dos eleitores daquela região votaram em Lee. O anúncio ocorre em um momento de queda na taxa de aprovação do presidente, que recuou por seis semanas consecutivas e está em 46,5%, segundo dados do instituto de pesquisa Realmeter.

Lee rebateu as críticas ao longo do fim de semana em publicações na rede social X, defendendo a proposta do polo no sudoeste e rejeitando a acusação de que o projeto favoreceria um reduto eleitoral. Especialistas do setor apontam que a diversificação dos investimentos em semicondutores para além de Seul pode ajudar a aliviar gargalos de infraestrutura na capital. No entanto, alertam que a instalação de fábricas de ponta em uma nova região exige logística avançada, uma rede consolidada de fornecedores e mão de obra altamente especializada, elementos que demandam tempo para se estruturar de forma compatível com o ritmo de crescimento da demanda por inteligência artificial.

A estratégia sul-coreana insere o país diretamente na corrida geopolítica por soberania tecnológica, na qual Estados Unidos e China também disputam hegemonia em semicondutores e IA. Com este plano, a Coreia do Sul busca não apenas manter sua relevância como fornecedora global de componentes críticos, mas também expandir sua capacidade produtiva para atender à crescente demanda internacional por infraestrutura de inteligência artificial.

O impacto da iniciativa deve se refletir ao longo de toda a cadeia global de tecnologia, da fabricação de smartphones à construção de grandes centros de processamento de dados. O sucesso do plano, no entanto, dependerá da capacidade do governo e das empresas envolvidas de superar desafios logísticos, políticos e de infraestrutura em um prazo compatível com a velocidade das transformações no setor.