Presidentes de empresas brasileiras enfrentam, com frequência crescente, a mesma cobrança em reuniões de conselho: o que a organização está fazendo em inteligência artificial. A pergunta é legítima, mas o problema, segundo especialistas que acompanham essas decisões de perto, está na pressa com que a indagação se converte em decisão de compra antes de se transformar em decisão de negócio. Guilherme Friol, fundador da Vircos, empresa dedicada a operar infraestrutura de inteligência artificial para organizações, observa esse padrão se repetir em companhias de diferentes tamanhos e setores.

Para Friol, a questão central não é a falta de tecnologia disponível no mercado, mas a ordem em que as escolhas são feitas. Na maioria das vezes, avalia ele, a empresa decide o que vai adquirir antes de compreender o que precisa resolver. Esse erro se manifesta de três formas recorrentes, independentemente do porte da companhia.

Comprar ou construir IA: o dilema do CEO brasileiro - Imagem complementar

A primeira forma é a adoção pela adoção. A empresa incorpora uma ferramenta de inteligência artificial porque um concorrente fez o mesmo ou porque o conselho espera ouvir o termo na próxima apresentação. Friol relata já ter participado de conversas em que essa motivação foi admitida abertamente, sem que houvesse um problema definido por trás da aquisição, apenas uma expectativa a cumprir. Quando a motivação é essa, a tecnologia entra como encenação, e encenação não gera resultado.

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A segunda forma é confundir parecer com funcionar. Uma demonstração de inteligência artificial convence em minutos, mas colocar a mesma solução para operar em produção, com dados reais da empresa e sob a pressão do dia a dia, é o que separa a promessa do resultado. Boa parte das frustrações com inteligência artificial, na experiência do fundador da Vircos, não decorre de tecnologia ruim, mas da distância entre o que pareceu pronto na apresentação e o que de fato funcionou quando precisou rodar em ambiente real.

A terceira forma é tratar comprar e construir como se fossem a mesma decisão, apenas tomada em momentos diferentes. Para Friol, são decisões de natureza distinta. O requisito que separa uma da outra não é o preço, mas o grau em que aquela capacidade é central para o que a empresa faz.

É nesse ponto que ele oferece o critério que diz utilizar para orientar quem precisa decidir. Se a capacidade de inteligência artificial é periférica ao negócio, algo que apoia uma função de suporte, comprar uma solução pronta costuma ser a escolha adequada, porque não faz sentido construir o que o mercado já entrega bem. Mas se a capacidade é central, se toca o que diferencia a empresa dos concorrentes ou envolve dados que a organização não pode entregar a terceiros, então construir ou ao menos operar com arquitetura própria deixa de ser opcional e passa a ser uma condição de soberania sobre o próprio negócio.

Essa é, na síntese de Friol, uma decisão de dono e não de orçamento. A pergunta certa não seria quanto custa, mas o que acontece com a empresa se essa capacidade ficar nas mãos de terceiros, em outro país, sob outra jurisdição. Quando a resposta é desconfortável, a empresa já sabe de que lado da decisão está, mesmo que ainda não tenha admitido.

A própria Vircos, segundo seu fundador, existe exatamente nesse ponto da decisão: opera a infraestrutura de inteligência artificial de organizações que concluíram que essa capacidade era central demais para terceirizar por completo. Friol ressalva que essa não é a realidade de toda empresa, nem defende que deva ser. O que defende é a ordem da decisão: primeiro o problema, depois o requisito de centralidade e só então a escolha entre comprar e construir.

Quando essa ordem se inverte, alerta ele, a empresa compra rápido e descobre devagar que resolveu a pergunta errada. O custo disso não se limita ao investimento financeiro. Envolve tempo perdido, equipes frustradas e a perda de janela competitiva diante de concorrentes que acertaram a sequência de decisões.

O mercado brasileiro de inteligência artificial deve continuar aquecido nos próximos anos, com inúmeros anúncios de estratégia corporativa. Alguns desses anúncios, na avaliação de Friol, vão sustentar resultados concretos. Outros vão envelhecer como encenação cara, sem gerar valor mensurável para a empresa.

A diferença entre os dois grupos não estará na sofisticação da tecnologia escolhida, mas na qualidade da decisão que veio antes dela. Continua sendo, como sempre foi, responsabilidade de quem dirige a empresa definir se a inteligência artificial é um item de apoio ou se é parte do que torna a organização única em seu mercado.

Para os profissionais de tecnologia que assessoram essas decisões, o recado é claro: a pergunta sobre inteligência artificial não deve ser respondida com o nome de um fornecedor, mas com o entendimento do problema a ser resolvido. Quando esse entendimento falta, qualquer compra parece certa no curto prazo e equivocada no longo prazo.