As principais empresas de tecnologia que operam no Brasil estão acelerando investimentos em inteligência artificial, com foco simultâneo em aplicações práticas para negócios e na expansão da infraestrutura computacional necessária para sustentar esses sistemas. O movimento foi destaque nos painéis do Web Summit Rio, realizado entre 8 e 11 de junho, e evidencia como o país se tornou um terreno estratégico na disputa global por capacidade de processamento, data centers e profissionais qualificados.

O avanço da inteligência artificial depende diretamente de poder computacional. Modelos de linguagem cada vez mais sofisticados exigem chips especializados e centros de processamento de dados robustos, o que tem levado companhias como Microsoft, NVIDIA e Equinix a ampliar suas operações no país. Em paralelo, empresas como Claro Empresas, Canva e Google Cloud trabalham para popularizar o uso da tecnologia entre negócios e profissionais.

Big techs aceleram investimentos em infraestrutura de IA no Brasil - Imagem complementar

A Microsoft anunciou um investimento de 14,7 bilhões de reais em infraestrutura de nuvem e inteligência artificial no Brasil até 2027. O plano também inclui a meta de capacitar 5 milhões de brasileiros em IA. Para Priscyla Laham, presidente da Microsoft Brasil, o país combina uma base relevante de desenvolvedores com uma demanda crescente das empresas por eficiência operacional, o que justifica o volume de recursos destinados à expansão.

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A NVIDIA, uma das principais fornecedoras mundiais de processadores usados em aplicações de inteligência artificial, avalia que o Brasil tem potencial para receber novos investimentos em infraestrutura, mas ressalta a necessidade de mais previsibilidade regulatória. Márcio Aguiar, diretor da NVIDIA para a América Latina, afirma que o país já dispõe da infraestrutura necessária, mas que a definição de políticas e incentivos é o fator que efetivamente influencia a tomada de decisão das empresas.

Aguiar também destaca o potencial de geração de empregos associado à expansão de data centers no território nacional. Segundo o executivo, a capacidade de processar dados localmente cria oportunidades em diferentes etapas, desde a construção física dos centros de dados até a manutenção dos equipamentos e a gestão dos sistemas por profissionais qualificados.

Pelo lado da infraestrutura física, a Equinix, provedora global de data centers e infraestrutura digital, acompanha o aumento da demanda provocado pela inteligência artificial. Victor Arnaud, presidente da empresa no Brasil, observa que a popularização da IA trouxe à tona uma discussão que costumava passar despercebida. Para ele, durante muito tempo as pessoas trataram os serviços digitais como algo abstrato, mas qualquer dado consumido depende de uma infraestrutura física concreta.

A Claro Empresas, por sua vez, busca ampliar sua atuação para além da conectividade tradicional. A empresa pretende oferecer soluções que integram rede, nuvem, segurança, inteligência artificial e análise de dados em um único portfólio. Gustavo Silbert, diretor-executivo da Claro Empresas, enfatiza que a tecnologia precisa gerar resultados concretos para os negócios, e não ser adotada apenas como uma tendência de mercado.

No Web Summit Rio, a Claro anunciou uma oferta de GPU como serviço, modelo que permite às empresas contratarem capacidade de processamento gráfico para projetos de inteligência artificial sem a necessidade de adquirir equipamentos próprios. Rodrigo Assad, diretor de inovação e produtos B2B do beOn Claro, explica que, historicamente, a comercialização de GPUs em blocos fechados de oito unidades representava uma barreira financeira significativa para a adoção em larga escala.

A empresa também aposta na expansão do 5G corporativo, com foco em setores como a indústria, onde aplicações de automação e equipamentos conectados ganham relevância. A combinação de conectividade de alta velocidade com inteligência artificial abre possibilidades para operações mais eficientes e seguras em ambientes industriais.

No segmento de criação e design, o Canva trabalha para incorporar recursos de inteligência artificial à sua plataforma e ampliar seu alcance entre profissionais e empresas. A companhia adquiriu o Affinity, aplicativo de design que reúne ferramentas de edição de imagem, criação vetorial e layout, além de ter comprado a Cavalry, startup especializada em animação 2D. Alberto Ceresa, gerente do Canva no Brasil, afirma que o papel da inteligência artificial é remover barreiras e permitir que mais pessoas tenham acesso à criação de conteúdo.

O Google Cloud adotou a capacitação profissional como uma de suas principais frentes para ampliar a adoção de inteligência artificial no Brasil. A empresa elevou de 1 milhão para 3 milhões a meta de brasileiros treinados em IA e computação em nuvem. Giulianna Domingues, líder de marketing para startups do Google Cloud no Brasil, destaca que muitas organizações ainda precisam redesenhar processos internos para incorporar a tecnologia de forma eficaz, mas que a inteligência artificial será o fator determinante para a competitividade das empresas nos próximos anos.

A movimentação das grandes empresas de tecnologia reflete uma tendência mais ampla. À medida que a inteligência artificial amadurece e passa a ser incorporada em processos produtivos, a demanda por infraestrutura computacional tende a crescer de forma sustentada. Data centers, chips especializados e profissionais qualificados formam a base sobre a qual os próximos avanços da tecnologia serão construídos.

O Brasil, com seu mercado de grande escala e ecossistema de tecnologia em expansão, aparece como um dos palcos centrais dessa transformação. As iniciativas anunciadas no Web Summit Rio indicam que as grandes empresas estão posicionando suas apostas no país, tanto na construção da infraestrutura física quanto na formação da mão de obra que sustentará a próxima fase do desenvolvimento da inteligência artificial.

O desafio, segundo os próprios executivos, será equilibrar o ritmo dos investimentos privados com a criação de condições regulatórias e de incentivo que garantam previsibilidade. Sem isso, o país corre o risco de perder atratividade em uma disputa que envolve nações e corporações em escala global.