A Prefeitura do Rio de Janeiro anunciou, no dia 12 de junho, o Rio Open 3.5, apresentado como um modelo de inteligência artificial de código aberto desenvolvido com financiamento público ao longo de um ano. O prefeito Eduardo Cavaliere (PSD) usou as redes sociais para exaltar o projeto como resultado de engenharia brasileira e símbolo de soberania tecnológica. A divulgação, porém, esconde um detalhe central: o modelo é, na prática, uma combinação de dois sistemas chineses pré-existentes.

O Rio Open 3.5 foi criado pela IplanRio, empresa pública de informática do município, e anunciado logo após o encerramento do Web Summit Rio, versão carioca do evento global de tecnologia. Com 397 bilhões de parâmetros, a ferramenta foi apresentada com testes internos que indicavam desempenho superior a sistemas como o DeepSeek V4 em tarefas de programação, matemática e raciocínio.

Rio Open 3.5: a polêmica da IA da prefeitura do Rio - Imagem complementar

Na realidade, o modelo é essencialmente uma fusão de dois sistemas de código aberto: o Nex-N2-Pro, desenvolvido pelo laboratório chinês Nex-AGI, e o Qwen 3.5-397B, criado pela Qwen, iniciativa da Alibaba. A técnica utilizada, conhecida como model merge, consiste em alinhar e somar parâmetros de tecnologias já prontas, exigindo pouco poder computacional e nenhuma pesquisa aprofundada.

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O especialista em tecnologia e inovação Arthur Igreja observou que praticamente nada foi desenvolvido de fato. Segundo ele, o processo se resumiu à mescla dos dois modelos disponíveis, sem um treinamento complexo ou refinamento substancial de dados. A avaliação de desempenho divulgada pela prefeitura também não contou com verificação externa, já que os testes foram conduzidos pela própria equipe municipal.

No dia 14 de junho, o laboratório Nex-AGI acusou publicamente a prefeitura de apropriação tecnológica sem os devidos créditos. Os desenvolvedores chineses apontaram que a documentação carioca havia omitido que o Rio Open 3.5 continha 60% do modelo Nex-N2-Pro, sendo os 40% restantes provenientes do Qwen 3.5-397B. Para demonstrar a situação, a Nex-AGI removeu uma instrução embutida que forçava a ferramenta a se apresentar como Rio 3.5. Sem esse filtro, a IA passou a responder que seu nome era Nex.

Kenneth Corrêa, especialista em IA e professor da Fundação Getulio Vargas (FGV), explicou que a prática de fusão de modelos é legítima, comum e permitida pela licença Apache 2.0 que rege essas arquiteturas. A exigência principal dessa licença é que a devida atribuição técnica seja feita aos criadores originais. O erro da equipe carioca, segundo ele, foi a falta de transparência na documentação inicial, o que na comunidade de código aberto é interpretado imediatamente como apropriação indevida.

Após a repercussão na imprensa e entre pesquisadores, a página do projeto na plataforma Hugging Face foi atualizada para incluir créditos à Nex-AGI. A IplanRio divulgou uma nota reconhecendo que houve uma falha operacional na publicação dos arquivos, que teria levado ao envio de uma versão preliminar de testes em vez da versão final do modelo. A empresa pediu desculpas pela inconsistência.

A nota da IplanRio admite ainda que não foi possível recuperar o modelo final. O documento informa que a ferramenta só será publicada assim que forem concluídos os treinamentos e todas as validações externas. Esse detalhe sugere que o modelo definitivo pode precisar ser refeito desde o início ou que sequer estava pronto quando foi anunciado pelo prefeito.

A empresa pública defendeu a estratégia de combinar modelos de código aberto como uma escolha legítima, voltada à responsabilidade fiscal e à redução de custos operacionais. Segundo a IplanRio, o Rio Open 3.5 é uma solução própria ajustada às necessidades da administração municipal, que garante autonomia tecnológica e dispensa o pagamento de licenças caras de softwares proprietários.

Apesar das inconsistências documentadas, Kenneth Corrêa destacou o mérito da iniciativa ao aplicar inteligência artificial para otimizar a máquina pública e modernizar o atendimento ao cidadão. Para o professor da FGV, o episódio reflete o atual estágio do Brasil na corrida global de IA, um país que ainda não é um competidor relevante na criação de modelos fundamentais do zero.

O caso do Rio Open 3.5 levanta questões importantes sobre como órgãos públicos comunicam projetos tecnológicos ao cidadão. A narrativa de soberania e autonomia, construída em torno de uma ferramenta baseada em tecnologias estrangeiras, expõe a distância entre o discurso e a realidade técnica do Brasil no campo da inteligência artificial generativa.

A transparência na documentação e a atribuição correta de créditos são princípios fundamentais no ecossistema de código aberto. Quando administrações públicas ignoram essas normas, o resultado não é apenas um problema de imagem institucional, mas um retrocesso na credibilidade de iniciativas de inovação financiadas com recursos públicos.