O boom da inteligência artificial está impulsionando uma corrida global por data centers, e os principais beneficiados na Bolsa brasileira podem não ser as grandes empresas de tecnologia. Na avaliação de Luciano França, sócio-fundador e gestor da Paramis Avantgarde Asset Management, companhias que fornecem os insumos essenciais para essa infraestrutura — como energia, transmissão elétrica, equipamentos industriais e até água — estão mais bem posicionadas para capturar valor nesse movimento.

A mudança de foco é relevante porque a expansão dos data centers, que são as grandes estruturas físicas onde servidores processam e armazenam dados usados por sistemas de inteligência artificial, exige volumes cada vez maiores de recursos básicos. Data centers demandam muita eletricidade para funcionar, precisam de sistemas de refrigeração que consomem grandes quantidades de água e dependem de equipamentos industriais robustos, como transformadores e sistemas de armazenamento de energia, para operar de forma contínua e estável. Diante desse cenário, a tendência é que setores tradicionalmente associados à infraestrutura passem a ganhar protagonismo nas carteiras de investimento.

Data Centers no Brasil: O Novo Filão para Investidores na Era da Inteligência Artificial - Imagem complementar

Em entrevista ao programa Janela de Mercado, do NeoFeed, França afirmou que boa parte das atenções voltadas para a construção de novos data centers está concentrada no Brasil, justamente por se tratar de um ativo que exige alta demanda por energia. O posicionamento do gestor reforça a tese de que o país pode se tornar um polo estratégico para receber investimentos em infraestrutura digital, aproveitando condições consideradas favoráveis em relação a outros mercados.

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Entre as ações destacadas pelo gestor como potenciais beneficiárias desse movimento está a Sabesp, negociada sob o código SBSP3. A companhia de saneamento aparece na lista de França por conta de seus projetos de reúso de água voltados ao resfriamento de equipamentos. A relevância desse tipo de iniciativa cresce em um cenário de maior preocupação com a eficiência no uso de recursos hídricos, já que data centers operam com sistemas de refrigeração intensiva que demandam grandes volumes de água. A participação da Sabesp nesse mercado representa uma diversificação de receitas além do seu core business tradicional de distribuição de água e tratamento de esgoto.

Outra empresa apontada pelo gestor como bem posicionada é a WEG, com código WEGE3. A fabricante brasileira de transformadores pode se beneficiar diretamente da crescente demanda por sistemas de armazenamento de energia, que são componentes essenciais para garantir o fornecimento contínuo de eletricidade em data centers que dependem de fontes renováveis. A WEG, tradicional fornecedora de equipamentos elétricos industriais, tem experiência no desenvolvimento de soluções para geração, transmissão e distribuição de energia, o que a coloca em posição favorável para atender às necessidades específicas desses novos projetos de infraestrutura digital.

A lógica por trás das recomendações de França parte de uma leitura simples: a inteligência artificial depende de capacidade computacional, e capacidade computacional depende de data centers, que por sua vez exigem uma cadeia complexa de fornecedores. Empresas de software e plataformas digitais recebem boa parte da atenção do mercado, mas a base física que sustenta todo esse ecossistema pode oferecer oportunidades de investimento igualmente relevantes, especialmente em países como o Brasil, que dispõem de matriz energética diversificada e potencial de expansão.

O gestor também lembrou que a demanda por energia é um dos fatores decisivos para a instalação de novos data centers. Regiões com capacidade de geração elétrica abundante, redes de transmissão modernas e oferta de fontes renováveis tendem a atrair mais projetos. Isso explica por que empresas do setor elétrico, fabricantes de equipamentos e até companhias de saneamento podem se tornar peças-chave na estratégia de investidores que buscam exposição ao crescimento da inteligência artificial sem apostar diretamente em companhias de tecnologia.

As recomendações de França refletem uma visão de que a revolução da inteligência artificial não se limita ao universo digital. Ela provoca efeitos concretos sobre setores da economia real, criando novas frentes de receita para empresas que fornecem os recursos fundamentais para o funcionamento dessa infraestrutura. À medida que os data centers se multiplicam para atender à crescente demanda por processamento de dados, a tendência é que o mercado repagine o papel de companhias tradicionais na cadeia de valor da nova economia digital.