Relatório da ONU alerta que consumo de energia da inteligência artificial pode dobrar até 2030
A promessa de que modelos mais avançados de inteligência artificial seriam também mais eficientes no consumo de energia e recursos pode não se confirmar na prática. Um novo relatório da Organização das Nações Unidas (ONU) indica que a expansão acelerada da tecnologia pode levar a um cenário oposto ao esperado, com pressão crescente sobre redes elétricas, reservas de água e uso de solo em escala global.
O estudo estima que o consumo energético da IA pode dobrar até 2030, atingindo cerca de 3% de toda a eletricidade produzida no planeta. O número de 2025 já chama atenção: somente naquele ano, os data centers consumiram um volume de eletricidade equivalente ao utilizado pela Arábia Saudita, um dos maiores consumidores energéticos do mundo. Caso a projeção se confirme, seriam necessários aproximadamente 6,7 bilhões de árvores plantadas ao longo de uma década apenas para compensar as emissões geradas.
A análise da ONU se apoia em um conceito econômico conhecido como paradoxo de Jevons. A teoria, formulada pelo economista William Stanley Jevons no século XIX, sustenta que ganhos de eficiência em uma tecnologia não necessariamente reduzem o consumo total de um recurso. Na observação original, melhorias na eficiência do uso de carvão na Inglaterra acabaram ampliando a demanda pelo mineral. Aplicado à inteligência artificial, o raciocínio sugere que modelos mais leves e baratos tendem a impulsionar uma adoção ainda maior, fazendo com que o uso total da tecnologia compense ou até supere a economia obtida com a eficiência técnica.
Os impactos previstos pelo documento vão além da eletricidade. A atividade associada à inteligência artificial poderia gerar emissões comparáveis às do Reino Unido e demandar um volume de água para resfriamento de sistemas superior ao total de água potável consumida anualmente pela população mundial. A infraestrutura física necessária para sustentar a expansão da tecnologia exigiria cerca de 9,3 trilhões de litros de água e uma área quase dez vezes maior que a da Cidade do México.
O relatório também destaca a elevada concentração geográfica da infraestrutura global de IA. Apenas 32 países hospedam sistemas de computação em nuvem dedicados à tecnologia, e cerca de 90% dessa capacidade está concentrada nos Estados Unidos e na China. Para os autores do estudo, essa distribuição desigual pode aprofundar uma divisão digital, na qual algumas nações desenvolvem e controlam os sistemas, enquanto outras assumem os impactos ambientais ligados à extração de matérias-primas e ao descarte de resíduos eletrônicos.
O peso ambiental da inteligência artificial varia de acordo com a frequência de uso e o tipo de tarefa executada. Atividades como geração de texto, programação, criação de imagens e produção de vídeos exigem diferentes níveis de processamento computacional, o que influencia diretamente o consumo de energia e recursos. A escolha do modelo também é determinante, já que sistemas distintos apresentam custos ambientais diferentes para realizar funções semelhantes.
Diante desse cenário, a ONU propõe um conjunto de princípios para orientar o desenvolvimento sustentável da IA. As recomendações incluem transparência, eficiência desde a concepção dos sistemas, responsabilidade ao longo de todo o ciclo de vida dos produtos, equidade, cooperação internacional e uso sustentável dos recursos naturais. A organização também defende a adoção de relatórios ambientais regulares durante o desenvolvimento e a operação dos sistemas, além de sugerir que governos incorporem projeções de demanda da tecnologia em seus planejamentos energéticos e climáticos.
A preocupação se torna ainda mais relevante à medida que a inteligência artificial passa a integrar serviços públicos. Países como Nova Zelândia e Austrália já implementam estratégias nacionais para ampliar o uso da tecnologia em órgãos governamentais. Na Nova Zelândia, foi criada uma estrutura para orientar a adoção da IA no setor público, enquanto a Austrália desenvolve projetos que envolvem transcrição automatizada de acervos audiovisuais e apoio ao processamento de solicitações governamentais.
O relatório observa, porém, que ambos os países adotam modelos regulatórios considerados leves, baseados em princípios gerais. Para os autores, esse tipo de abordagem pode deixar em segundo plano justamente os impactos ambientais decorrentes da expansão da inteligência artificial. A solução defendida pela ONU passa por uma visão integrada de toda a cadeia produtiva, que vai da extração das matérias-primas até a reciclagem e o descarte dos equipamentos, acompanhada de maior rigor na mensuração e na divulgação dos efeitos da tecnologia sobre o meio ambiente.