Exército chinês buscou chips de inteligência artificial da Nvidia por mais de seis anos, revela análise
O Exército de Libertação Popular da China realizou mais de 500 tentativas de aquisição de chips de inteligência artificial da Nvidia desde 2019, mesmo após o governo dos Estados Unidos impor restrições à venda de semicondutores avançados para adversários estrangeiros. A conclusão vem de uma análise de seis anos de registros de compras públicas chinesas conduzida pela Wirescreen, plataforma de software especializada em fornecer informações sobre empresas chinesas.
O estudo examinou cerca de 3,8 mil registros de aquisição relacionados a chips de alto desempenho e computação, documentando tentativas sistemáticas das forças armadas chinesas de obter tecnologia norte-americana restrita. Os modelos procurados incluíram os chips A100, A800, H100 e H800, tanto antes quanto depois de esses componentes terem sido incluídos nas listas de controle de exportação dos Estados Unidos.
Jensen Huang, presidente-executivo e cofundador da Nvidia, já havia afirmado publicamente que o exército chinês não depende de chips de sua empresa, sediada na Califórnia. No entanto, os documentos analisados pela Wirescreen contradizem essa declaração, evidenciando um esforço contínuo e persistente de várias unidades militares chinesas para acessar a tecnologia. John Costello, analista da Wirescreen responsável pelo relatório, afirmou que os dados mostram de forma direta e irrefutável que tecnologia norte-americana estava equipando o exército chinês, questionando quantos chips avançados nas mãos do Exército de Libertação Popular a Nvidia consideraria aceitável.
A busca envolveu praticamente todos os ramos das forças armadas chinesas, incluindo unidades dedicadas a simulações de explosivos nucleares, ataques cibernéticos ofensivos e planejamento de jogos de guerra. Em janeiro de 2024, por exemplo, uma divisão militar de cibersegurança baseada em Pequim solicitou quatro servidores de inteligência artificial equipados com chips A100 da Nvidia, cujo equipamento precisava ser capaz de suportar o Hashcat, ferramenta utilizada para quebra de senhas.
A Nvidia contestou a relevância das descobertas. John Rizzo, porta-voz da empresa, argumentou que sistemas avançados de inteligência artificial normalmente operam em redes compostas por 100 mil chips ou mais. Na análise da Wirescreen, o volume solicitado pelo exército chinês ficou consideravelmente abaixo desse patamar, o que sugeriria que a China depende parcialmente de fabricantes domésticos, como a Huawei. Rizzo afirmou que a China possui chips domésticos mais que suficientes para todas as suas aplicações militares, com milhões sobrando, e classificou a ideia de que o exército chinês dependeria de pequeno número de chips da Nvidia como tola e falsa. Ele também comparou a situação com a improbabilidade de o exército norte-americano depender de tecnologia chinesa.
As restrições comerciais impostas pelos Estados Unidos desaceleraram as compras chinesas, mas não impediram totalmente o acesso. Segundo Costello, o exército chinês desenvolveu estratégias para contornar os controles, incluindo a utilização de diferentes tipos de empresas para realizar as compras, desde firmas tecnológicas estabelecidas até empresas de fachada. Esse processo de adaptação levou cerca de um ano. O Instituto Jiangnan de Tecnologia da Computação, principal centro de pesquisa da Força Cibernética chinesa, responsável por guerra cibernética, reconhecimento e vigilância doméstica, chegou a ter dificuldades para obter chips após os controles de exportação de 2022 e 2023, sendo forçado a relistar licitações não concluídas. O instituto foi adicionado à lista negra comercial dos Estados Unidos em 2019 por desenvolver supercomputadores para o exército chinês.
O relatório também revelou que pelo menos sete universidades chinesas que apoiam as forças armadas e a indústria de defesa do país buscaram acesso aos chips H200 da Nvidia, a geração mais recente de processadores de inteligência artificial da empresa permitida para exportação à China. Duas dessas instituições, a Universidade Beihang e a Universidade Politécnica do Noroeste, fazem parte dos chamados Sete Filhos da Defesa Nacional, grupo de elite dedicado a auxiliar o Exército de Libertação Popular, e já foram incluídas na lista negra do Departamento de Comércio dos Estados Unidos.
O documento foi compartilhado com o governo do presidente Donald Trump e com o Congresso norte-americano, que atualmente debatem o futuro das vendas da Nvidia para a China. Parlamentares republicanos reagiram com preocupação. O representante John Moolenaar, presidente do Comitê Seleto da Câmara sobre o Partido Comunista Chinês, afirmou que o relatório demonstrou como a China tenta contrabandear e roubar tecnologia norte-americana para fins militares. O senador Jim Banks classificou o acesso do exército chinês aos chips como uma crise de segurança nacional, afirmando que a China está fazendo tudo o que pode para transformar a inteligência artificial em arma contra o exército dos Estados Unidos.
Enquanto isso, a China continua investindo no desenvolvimento de tecnologia doméstica. Na semana passada, a Huawei revelou avanços no desenvolvimento de chips que poderiam permitir a fabricação de componentes de ponta dentro de cinco anos, com previsão de produzir milhões de unidades este ano, segundo a firma de pesquisa SemiAnalysis. Um porta-voz da Embaixada Chinesa declarou que a China defende consistentemente a cooperação com os Estados Unidos e se opõe à transformação de questões tecnológicas e econômicas em armas de disputa. A análise da Wirescreen evidencia, portanto, a complexidade do cenário de semicondutores e o impacto direto das restrições comerciais na corrida tecnológica entre as duas maiores potências mundiais.