Menos de dois anos após o DeepSeek provocar uma reavaliação global sobre os requisitos para treinar modelos de linguagem avançados, novos nomes da inteligência artificial chinesa passaram a disputar diretamente com o Claude, da Anthropic, tanto em benchmarks técnicos quanto na adoção pelo mercado consumidor da China. Os dois destaques são o Kimi, desenvolvido pela Moonshot AI, e o Doubao, criado pela ByteDance — empresa dona do TikTok e de sua versão chinesa, o Douyin. Juntos, esses modelos reforçam uma tendência já visível desde o início de 2025: a China não apenas igualou o ritmo de inovação dos Estados Unidos em inteligência artificial generativa, como começou a oferecer alternativas concretas em custo e funcionalidade para desenvolvedores e usuários finais.

O contexto é importante. Desde o final de 2025, o Claude se consolidou como referência em tarefas como prototipagem de aplicativos, geração de código e criação de apresentações. No entanto, o uso intensivo por meio de API tem revelado um obstáculo significativo: o custo elevado de processamento. A cobrança por tokens — unidades básicas de processamento usadas por modelos de linguagem — se acumula rapidamente, gerando faturas mensais que podem inviabilizar o uso contínuo, especialmente para desenvolvedores independentes e equipes de menor porte. É nesse cenário que o Kimi, da Moonshot AI, passou a ser visto como uma alternativa competitiva no mercado corporativo.

Modelos chineses Doubao e Kimi desafiam hegemonia do Claude da Anthropic - Imagem complementar

A Moonshot AI não se limitou a melhorar as capacidades fundamentais do modelo, como raciocínio complexo e geração de código. A empresa investiu também no desenvolvimento de ferramentas acopladas à inteligência artificial para tarefas específicas — recursos conhecidos no jargão técnico como harnesses ou arreios. Essas ferramentas ampliam a utilidade prática do modelo em fluxos de trabalho empresariais, permitindo que o Kimi concorra não apenas em qualidade de resposta, mas em integração com processos reais de desenvolvimento.

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Enquanto o Kimi ganha relevância no segmento corporativo, o Doubao, da ByteDance, domina o uso cotidiano de inteligência artificial na China. O modelo está profundamente integrado aos super apps do ecossistema da empresa, especialmente ao Douyin, a versão chinesa do TikTok. Na prática, milhões de chineses recorrem ao Doubao diariamente para tirar dúvidas, gerar conteúdo de texto e imagem, e resolver problemas corriqueiros — tudo sem sair do aplicativo que já utilizam para consumo de vídeo e redes sociais.

A integração com plataformas de alto tráfego é um diferencial estratégico difícil de replicar. Nos Estados Unidos e na Europa, o acesso a modelos como o Claude ou o ChatGPT, da OpenAI, ocorre predominantemente por meio de aplicativos próprios ou interfaces web dedicadas. Na China, a ByteDance transformou o Doubao em uma funcionalidade nativa dentro de um aplicativo que já conta com centenas de milhões de usuários ativos, eliminando a fricção de adoção.

A ByteDance também sinaliza ambição internacional. A empresa lançou uma versão global do Doubao sob o nome Dola — anteriormente chamada de Cici — com campanhas de marketing voltadas sobretudo para o mercado europeu. A estratégia segue um padrão já testado pela companhia: lever o alcance do TikTok para impulsionar a adoção de novos produtos em mercados fora da China. A expansão do Seedance, outro modelo da ByteDance voltado para conteúdo audiovisual, reforça que a empresa pretende cobrir múltiplas frentes na inteligência artificial generativa.

Para o mercado brasileiro, por enquanto, a presença desses modelos segue praticamente nula. Os comentaristas apontam que ainda não ocorreu no Brasil algo comparável ao momento em que o DeepSeek se tornou um fenômeno global, entre janeiro e fevereiro de 2025. A chegada de alternativas chinesas ao país permanece incerta e não há previsão concreta de que isso aconteça no curto prazo, o que mantém o ecossistema local dependente das soluções oferecidas por empresas norte-americanas.

A disputa entre modelos chineses e americanos vai além da competição comercial. Ela reconfigura o mapa geopolítico da inteligência artificial, reforçando a divisão entre dois blocos tecnológicos com infraestruturas, regulamentações e estratégias de mercado distintas. Enquanto os Estados Unidos concentram investimentos em empresas como OpenAI, Anthropic e Google, a China constrói um ecossistema próprio com players como Moonshot AI, ByteDance e a já conhecida DeepSeek, que recentemente reforçou sua presença no setor de robótica.

A emergência do Kimi e do Doubao também expõe um desafio comum a todo o setor: a tensão entre capacidade técnica e viabilidade econômica. Modelos mais sofisticados tendem a ser mais caros de operar, e o preço final ao consumidor reflete diretamente esse custo. A Moonshot AI e a ByteDance parecem ter encontrado um ponto de equilíbrio ao oferecer desempenho competitivo com uma estrutura de precificação mais acessível, um fator que tende a atrair tanto desenvolvedores quanto empresas em busca de redução de custos.

Outro aspecto relevante é a velocidade com que o cenário evolui. O DeepSeek foi o protagonista principal da disputa entre China e Estados Unidos em inteligência artificial durante grande parte de 2025. Pouco mais de um ano depois, novos modelos já ocupam o centro das discussões, indicando que a competitividade chinesa não se resume a um único player, mas a um ecossistema robusto com capacidade contínua de inovação.

O desafio para a Anthropic é claro. O Claude continua sendo um modelo de referência em diversas métricas de qualidade, mas a pressão competitiva sobre seu modelo de negócio cresce de forma consistente. Se a tendência de custo elevado se mantiver e as alternativas chinesas continuarem avançando em capacidades técnicas e ferramentas de integração, a empresa precisará encontrar formas de tornar sua oferta mais acessível sem comprometer a qualidade — um desafio que é, em essência, o mesmo enfrentado por toda a indústria de inteligência artificial generativa.

Para profissionais de tecnologia no Brasil, a movimentação na China merece atenção. Embora os modelos chineses ainda não estejam disponíveis de forma direta no mercado local, a simples existência de alternativas competitivas ao Claude e ao ChatGPT contribui para pressionar preços e acelerar inovações em nível global. O benefício indireto pode se traduzir em maior variedade de opções, melhor relação custo-benefício e, em última análise, mais democratização no acesso a ferramentas de inteligência artificial avançada.