O primeiro grande julgamento do setor de inteligência artificial no Vale do Silício está prestes a ser concluído. Após três semanas de audiências na ação judicial movida por Elon Musk contra os cofundadores da OpenAI, os jurados devem iniciar as deliberações para definir o veredito. O caso, iniciado em 2024, acusa a empresa de ter abandonado sua missão original sem fins lucrativos e carrega implicações profundas para a governança de IA no mundo.

O julgamento ocorreu em Oakland, nos Estados Unidos, e colocou frente a frente figuras centrais da história da OpenAI, como Musk, Sam Altman e Greg Brockman. O processo expôs desentendimentos antigos, estratégias de negócios e relações pessoais que moldaram o destino de uma das empresas mais valiosas da atualidade.

Julgamento de Musk contra a OpenAI chega à reta final nos EUA - Imagem complementar

Musk iniciou o processo argumentando que a OpenAI se desviou de seus propósitos fundadores, originalmente voltados ao desenvolvimento de inteligência artificial para o benefício da humanidade, sem fins lucrativos. A defesa da OpenAI, por sua vez, sustenta que o empresário teve conhecimento prévio das mudanças estruturais da organização.

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Na abertura do julgamento, em 28 de abril, Musk se apresentou como alguém motivado pelo risco existencial que a inteligência artificial representaria para a humanidade. O CEO da SpaceX afirmou que foi ele quem concebeu a ideia da OpenAI, criou o nome, recrutou as pessoas-chave e forneceu o financiamento inicial para a criação da empresa em 2015.

Segundo Musk, ele investiu cerca de 38 milhões de dólares na fase inicial da organização e, em troca, recebeu praticamente nada. Ele classificou sua própria atuação como ingênua ao ver a OpenAI atingir uma avaliação de 800 bilhões de dólares sem que ele tivesse qualquer participação nesse valor. Durante as sessões, o empresário demonstrou irritação com o advogado da OpenAI, acusando-o de tentar induzi-lo ao erro por meio das perguntas formuladas.

O CEO da OpenAI, Sam Altman, permaneceu discreto durante grande parte do julgamento, acompanhando as sessões na primeira fila do tribunal. Ele prestou depoimento em 12 de maio e foi questionado diretamente sobre sua conduta. Ao ser indagado pelo advogado de Musk, Steven Molo, se sempre havia dito a verdade, Altman respondeu que provavelmente houve momentos de sua vida em que isso não ocorreu.

Altman contra-atacou ao revelar que, em 2017, Musk teria solicitado 90% das ações da OpenAI e se recusado a formalizar por escrito qualquer compromisso de compartilhamento de controle. O executivo argumentou que a empresa considerava inaceitável concentrar o poder sobre uma inteligência artificial avançada nas mãos de uma única pessoa.

O depoimento de Greg Brockman, presidente e cofundador da OpenAI, em 4 de maio, trouxe à tona cadernos amarelos nos quais ele registrou anotações anos atrás. Esses documentos ganharam protagonismo durante o julgamento. O advogado de Musk destacou trechos em que Brockman expressava o desejo de ganhar dinheiro e considerava afastar Musk da organização, além de menções a tomar a fundação do bilionário.

Brockman declarou que não se envergonhava do conteúdo dos cadernos e acrescentou que os registros não capturavam todos os detalhes de um episódio ocorrido em 2017. Segundo ele, teria temido que Musk fosse agredi-lo fisicamente naquela ocasião. Embora não tenha investido recursos na criação da empresa, a participação atual de Brockman na OpenAI é avaliada em aproximadamente 30 bilhões de dólares.

O depoimento de Shivon Zilis, em 6 de maio, trouxe outro elemento surpreendente ao caso. Zilis, que é mãe de quatro filhos de Musk e integrou o conselho da OpenAI entre 2020 e 2023, raramente aparece em público. Ela foi questionada sobre sua relação com Musk, com quem trabalhou na Neuralink, empresa de interface cérebro-máquina, e também sobre sua amizade com Altman.

A OpenAI afirmou que Zilis atuava como informante de Musk dentro do conselho da organização. Durante o depoimento, ela respondeu de forma breve e, em alguns momentos, com ironia. Ao ser perguntada sobre a natureza de sua relação com Musk, afirmou que "relação" é um termo relativo e admitiu a existência de momentos românticos entre os dois.

As mensagens trocadas entre Zilis, Musk e Altman constituem um elemento central para o desfecho do caso. A defesa da OpenAI argumenta que essas conversas podem demonstrar que o empresário já tinha conhecimento dos rumos que a empresa pretendia seguir muito antes de 2023, o que enfraqueceria a tese de que foi surpreendido pela mudança de estrutura. Se os jurados aceitarem essa interpretação, o processo poderá ser rejeitado antes mesmo do início das deliberações.

O julgamento representa um marco para a indústria de inteligência artificial. Independentemente do veredito, o caso estabelece um precedente jurídico relevante sobre a governança de organizações que desenvolvem tecnologias de ponta, os limites entre missões sem fins lucrativos e operações comerciais, e a complexidade das relações entre cofundadores em ecossistemas de alta inovação. O setor acompanha com atenção, uma vez que o resultado pode influenciar a forma como futuras disputas envolvendo IA serão conduzidas nos tribunais.