Plataformas de streaming musical recebem diariamente milhares de faixas produzidas por inteligência artificial, mas o público continua preferindo artistas reais e canções consagradas há décadas. Os dados divulgados em maio de 2026 mostram que, apesar do volume crescente de conteúdo artificial, as reproduções ainda estão concentradas em músicas do passado, impulsionadas por redes sociais, filmes, séries e tendências no TikTok.

Na Deezer, plataforma de streaming presente em mais de 180 países, cerca de 44% das músicas enviadas todos os dias são produzidas artificialmente, o que equivale a aproximadamente 75 mil uploads diários. Apesar dessa enxurrada de conteúdo, as faixas geradas por IA representam apenas entre 1% e 3% do total de reproduções no serviço. O número revela que a oferta não se traduz em consumo efetivo e que os ouvintes mantêm preferência clara por obras de artistas humanos.

Músicas geradas por IA lotam plataformas, mas clássicos dominam o streaming - Imagem complementar

No Spotify, a maior plataforma de streaming do mundo, o cenário se repete. Entre as 100 músicas mais ouvidas globalmente no momento da publicação da reportagem, nenhuma havia sido criada integralmente por inteligência artificial. O ranking é dominado por artistas consolidados e por faixas antigas que voltaram a viralizar graças a diferentes gatilhos culturais.

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O retorno de canções do passado às paradas de sucesso é um fenômeno impulsionado pela própria lógica das plataformas. Músicas lançadas há mais de uma década frequentemente ressurgem nas paradas após viralizarem em vídeos curtos ou serem vinculadas a produções audiovisuais de grande repercussão.

Michael Jackson é um dos exemplos mais expressivos. Mesmo 17 anos após sua morte, o cantor conta com seis músicas entre as 50 mais ouvidas do Spotify, impulsionado pelo lançamento recente de sua cinebiografia. Justin Bieber aparece no topo do ranking global com a faixa Beauty And The Beat, lançada em 2012, que ganhou projeção após a apresentação do canadense no festival Coachella em abril de 2026. Katy Perry também teve uma canção resgatada: The One That Got Away, de 2010, voltou às paradas após impulsionamento nas redes sociais.

Especialistas ouvidos pela reportagem atribuem a persistência do consumo de músicas clássicas à identificação emocional e à memória afetiva, elementos que produções geradas por IA ainda não conseguem sustentar de forma duradoura. O doutor em ciências da comunicação Maximiano Cirne contextualiza esse comportamento a partir de uma perspectiva cultural mais ampla.

Para Cirne, a instabilidade de referenciais característica da pós-modernidade torna o presente e o futuro incertos, enquanto as memórias funcionam como um refúgio coerente e significativo. Essa dinâmica explicaria por que os ouvintes buscam conforto em canções que já fazem parte de suas vivências, em vez de aderir a conteúdos gerados algoritmicamente.

Enquanto artistas reais e canções antigas dominam as paradas, projetos criados por inteligência artificial enfrentam dificuldade para manter o interesse do público após o primeiro momento de viralização. Em 2025, a cantora fictícia Tocanna viralizou com a música São Paulo, uma paródia inspirada em Alicia Keys e Jay-Z. O projeto chegou a alcançar 180 mil ouvintes mensais, mas perdeu quase 40% da audiência nos meses seguintes.

A banda fictícia The Velvet Sundown passou por trajetória semelhante. Após ultrapassar 1 milhão de ouvintes mensais em julho de 2025, o grupo caiu para cerca de 125 mil em maio de 2026, revelando que o interesse gerado por projetos puramente artificiais tende a se dissipar rapidamente.

A doutora em comunicação e estudos de cultura pop Tatyane Larrubia aponta que o diferencial está na construção de narrativa e conexão emocional com o público. Segundo ela, artistas fictícios com uma boa narrativa conseguem conquistar fãs independentemente da tecnologia utilizada, pois o que gera identificação é o contexto e a história em torno da obra, não apenas a qualidade técnica do som.

O exemplo da banda Gorillaz ilustra essa argumentação. Criada por humanos, a grupo construiu uma base sólida de fãs ao longo dos anos graças ao universo narrativo desenvolvido em torno dos personagens virtuais. A diferença em relação aos projetos de IA está justamente na profundidade da construção artística e na capacidade de manter vínculos afetivos duradouros.

Diante do avanço do conteúdo gerado artificialmente, as plataformas começaram a adotar medidas de controle. Em 2025, o Spotify removeu mais de 75 milhões de faixas consideradas spam, muitas delas possivelmente ligadas à inteligência artificial. A Deezer passou a identificar álbuns criados com IA e excluiu esse tipo de faixa de playlists e recomendações voltadas à música tradicional. Plataformas como YouTube Music e Amazon Music ainda não exibem avisos claros sobre o uso de inteligência artificial nas músicas disponibilizadas.

Os números e os depoimentos dos especialistas indicam que, por enquanto, a inteligência artificial ainda não encontrou uma fórmula capaz de substituir o vínculo emocional que o público estabelece com artistas e canções que marcaram épocas. Cirne resume o desafio ao afirmar que a questão central não é definir se a música foi criada por um humano ou por uma máquina, mas sim avaliar a capacidade da obra de gerar experiências emocionais duradouras e conexões afetivas com quem a escuta.

O cenário atual sugere que a inteligência artificial tende a seguir como uma ferramenta complementar na produção musical, mas não como substituta da experiência artística humana. Enquanto algoritmos não forem capazes de criar narrativas e laços emocionais genuínos, os clássicos devem continuar ocupando o topo das paradas e os ouvidos dos streamedings ao redor do mundo.