Academia proíbe atuações e roteiros gerados por inteligência artificial no Oscar 2027

A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas anunciou, nesta sexta-feira (1), novas regras para a edição do Oscar de 2027 que estabelecem uma barreira clara contra o uso de inteligência artificial nas categorias de atuação e roteiro. Pela decisão, somente interpretações demonstravelmente realizadas por seres humanos com seu consentimento poderão concorrer às principais categorias da premiação cinematográfica. Da mesma forma, os roteiros precisarão obrigatoriamente ter autoria humana para serem considerados elegíveis. A cerimônia está prevista para 14 de março de 2027.

Oscar 2027: Academia Traça Limites para Inteligência Artificial no Cinema - Imagem complementar

A medida foi divulgada poucos dias depois de um evento que gerou intenso debate na indústria: a apresentação pública de uma versão gerada por IA do ator Val Kilmer, morto em 2025, no filme de aventura histórica intitulado As Deep as the Grave. Kilmer havia sido escalado para o papel do padre Fintan, um sacerdote católico e espiritualista indígena, mas seu estado de saúde o impediu de comparecer às gravações. Com o apoio de sua família e do espólio do ator, o diretor e roteirista Coerte Voorhees utilizou inteligência artificial generativa para reconstruir a imagem e a voz do artista, permitindo sua participação póstuma no longa.

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A inteligência artificial generativa é a tecnologia capaz de criar novos conteúdos, como imagens, vídeos e textos, a partir de padrões aprendidos durante o treinamento com grandes volumes de dados. No caso do filme com Val Kilmer, essa técnica permitiu que a aparência e a voz do ator fossem reproduzidas digitalmente, construindo uma performance sintética a partir de material previamente gravado. Segundo o diretor, a família do ator considerou que o projeto era importante e que Kilmer realmente desejava participar dele.

A decisão da Academia, no entanto, não proíbe inteiramente o uso de ferramentas de IA na produção cinematográfica. Os cineastas continuarão podendo recorrer a essas tecnologias em diversas etapas de um filme, desde que as categorias de interpretação e roteiro sejam preenchidas exclusivamente por profissionais humanos. Um ator sintético, criado inteiramente por computador sem base em uma performance real de um artista vivo, ficará automaticamente fora de qualquer disputa pelo Oscar.

Essa distinção ganha relevância diante do caso recente de Tilly Norwood, uma atriz gerada inteiramente por inteligência artificial que foi apresentada ao mercado no ano passado e despertou o interesse de alguns estúdios de Hollywood. O produtor responsável pela criação do personagem se gabou publicamente da atenção recebida da indústria, o que amplificou as preocupações de profissionais do cinema e da televisão sobre a possibilidade de a tecnologia ser usada para substituir atores humanos com o objetivo de reduzir custos de produção.

O Sindicato de Atores da Screen Actors Guild, conhecido pela sigla SAG-AFTRA, reagiu de forma negativa à criação de Tilly Norwood. Em nota oficial, o sindicato deixou claro que o personagem não deveria ser tratado como uma atriz, mas sim como um produto gerado por um programa de computador, desprovido de qualquer vínculo com a profissão interpretativa. O posicionamento reflete a tensão crescente entre os avanços da inteligência artificial e as demandas por proteção trabalhista no setor audiovisual.

As preocupações dos profissionais do cinema e da televisão não se limitam às atuações. A possibilidade de roteiros serem escritos por modelos de linguagem de grande porte, sistemas treinados com grandes volumes de dados para gerar textos coerentes, também alarmou roteiristas de todo o mundo. A regra agora publicada pela Academia estabelece que textos produzidos exclusivamente por esses sistemas não poderão ser submetidos às categorias de roteiro original ou adaptado do Oscar.

Além da exigência de autoria humana, a Academia manteve o direito de solicitar informações detalhadas sobre o emprego de inteligência artificial em qualquer produção concorrente. Essa prerrogativa permite à organização avaliar, caso a caso, se o uso da tecnologia em determinados filmes respeita os limites estabelecidos nas novas diretrizes e se as atuações e os roteiros atendem ao requisito de origem humana.

A discussão sobre o papel da inteligência artificial no cinema vem se intensificando nos últimos anos, à medida que ferramentas capazes de gerar vídeos, imagens e diálogos se tornaram mais sofisticadas e acessíveis. Estúdios e produtores enxergam nas novas tecnologias uma forma de otimizar processos criativos e reduzir custos de produção, enquanto profissionais da área temem que o avanço desses sistemas possa comprometer empregos e desvalorizar o trabalho artístico humano.

A iniciativa da Academia segue a tendência de instituições culturais que buscam traçar limites regulatórios para o uso de IA em atividades criativas. Ao definir que performances e roteiros de origem artificial não terão vez na principal premiação do cinema mundial, a entidade sinaliza uma posição de valorização do trabalho humano nas artes cênicas e literárias, ainda que permita o emprego de tecnologias complementares na produção audiovisual.

Com as novas regras em vigor, a cerimônia do Oscar 2027 ficará restrita a profissionais que tenham efetivamente atuado ou escrito as obras concorrentes. A decisão afeta diretamente projetos que dependem de atores sintéticos ou de roteiros elaborados por programas de computador, delineando um cenário em que a presença humana nas categorias mais prestigiadas do cinema se torna um critério obrigatório para a disputa pela estatueta dourada.