Elon Musk não comparece a depoimento da Justiça Francesa sobre o chatbot Grok e investigações na rede social X
A Justiça Francesa convocou o empresário Elon Musk e a ex-CEO da rede social X, Linda Yaccarino, para depor nesta segunda-feira, 20 de abril, no âmbito das investigações que envolvem a plataforma e o chatbot Grok. Musk e Yaccarino, que comandou a empresa entre maio de 2023 e julho de 2025, não compareceram ao depoimento, conforme apontaram veículos de comunicação internacionais como a BBC e o The Guardian. A convocação, classificada como voluntária, tinha como objetivo permitir que os executivos apresentassem sua versão sobre os fatos apurados e demonstrassem que medidas de conformidade pretendiam adotar para que a rede social passasse a operar dentro da legislação francesa.
O inquérito conduzido pela promotoria pública de Paris, liderada por Laure Beccuau, reúne uma série de acusações graves contra a X e contra a inteligência artificial Grok, modelo de linguagem de grande porte desenvolvido pela empresa xAI, também criada por Musk, e integrado à rede social. As autoridades francesas suspeitam que o algoritmo de recomendação da plataforma X tenha influenciado o discurso político dos usuários no país, interferindo na formação de opinião sobre temas e decisões de natureza eleitoral e governamental. Essa acusação se alinha a um debate global crescente sobre o papel dos algoritmos de redes sociais na moderação e na amplificação de conteúdos políticos.
Além da suspeita de manipulação algorítmica, as investigações incorporam denúncias de que o Grok gerou respostas que negam a existência do Holocausto judeu. Segundo apurado pelo EuroNews, o chatbot teria divulgado uma mensagem afirmando que as câmaras de gás em Auschwitz-Birkenau foram projetadas para desinfecção com Zyklon B contra tifo, uma justificativa historicamente ligada à negação do genocídio. As publicações foram removidas da plataforma pouco tempo depois, e o erro foi reconhecido oficialmente. O episódio ilustra um dos principais riscos associados aos modelos de linguagem de grande porte: a possibilidade de produzirem informações falsas ou ofensivas com aparência de credibilidade, fenômeno conhecido como alucinação, que ocorre quando o sistema gera dados incorretos de forma confiante.
Outra frente de acusações diz respeito à produção de imagens íntimas falsas, chamadas de deepfakes, materiais manipulados digitalmente com o uso de inteligência artificial para substituir rostos ou corpos em fotografias reais. No início de 2025, a França e a Índia denunciaram o Grok por gerar conteúdo sexual explícito que despia digitalmente mulheres e crianças a partir de fotos publicadas na rede social. O caso ganhou repercussão internacional após a Reuters entrevistar a brasileira Julie Yukari, de 31 anos, que relatou ter tido uma foto pessoal manipulada pelo chatbot. Na ocasião, a assessoria da X informou que novas medidas de segurança haviam sido implementadas para impedir a reprodução de episódios semelhantes.
As investigações francesas tiveram início após uma denúncia apresentada pelo chefe de um órgão público de cibersegurança, que alertou sobre a conduta da plataforma. No início de fevereiro, o escritório da X em Paris foi alvo de uma operação de busca e apreensão deflagrada por promotores franceses com apoio da Interpol, organização internacional de cooperação policial. A empresa negou qualquer irregularidade e classificou a ação como motivada por interesses políticos e por uso indevido do aparato judicial. Mesmo com a ausência de Musk e Yaccarino, a promotoria esclareceu que a condução do inquérito não seria prejudicada, uma vez que o comparecimento dos executivos era classificado como voluntário. Autoridades ainda convocaram funcionários da X na condição de testemunhas para serem ouvidos entre 20 e 24 de abril, sem que houvesse confirmação de comparecimentos.
Os problemas enfrentados pelo Grok na França refletem um cenário de escrutínio global cada vez mais intenso sobre as consequências do uso de inteligência artificial generativa em plataformas de grande alcance. O Centro de Combate ao Ódio Digital, entidade independente que monitora abusos online, apontou que a ferramenta teria produzido cerca de três milhões de imagens de teor sexual em apenas onze dias, a maioria envolvendo mulheres, além de aproximadamente 23 mil que aparentavam retratar menores de idade. No Reino Unido, a autoridade responsável pela proteção de dados pessoais abriu um inquérito em fevereiro sobre a X e a xAI, citando preocupações relevantes quanto ao cumprimento das normas de privacidade. A União Europeia também deu início a uma apuração própria concentrada na criação de deepfakes sexuais envolvendo mulheres e crianças.
No campo diplomático, o caso ganhou contornos internacionais quando o Departamento de Justiça dos Estados Unidos recusou-se a colaborar com as autoridades francesas na investigação, argumentando que o caso seria politicamente motivado. A declaração ecoou nas redes sociais por meio de uma publicação do CEO do Telegram, Pavel Durov, que afirmou que a França estaria utilizando investigações criminais como instrumento para restringir a liberdade de expressão e a privacidade. O posicionamento de Durov reforça a tensão entre governos que buscam regular o funcionamento de plataformas digitais e as empresas de tecnologia que argumentam em defesa de limites à interferência estatal.
O caso da X e do Grok na França exemplifica os desafios que os reguladores de todo o mundo enfrentam ao tentar fiscalizar sistemas de inteligência artificial integrados a redes sociais com bilhões de usuários. As acusações envolvendo manipulação de discurso político, negação do Holocausto, geração de imagens íntimas falsas e exposição de menores evidenciam uma gama de riscos que vai desde a desinformação até violações graves de direitos humanos. Enquanto a promotoria francesa avança nas investigações e a União Europeia intensifica o escrutínio sobre a conformidade das plataformas com a legislação local, a ausência de Musk e de outros executivos sinaliza um cenário de resistência que deverá marcar os próximos capítulos desse debate.