Os irmãos diretores Ben e Josh Voorhees anunciaram o uso de inteligência artificial para recriar digitalmente o ator Val Kilmer em seu próximo filme, 'As Deep as the Grave'. Kilmer, que faleceu em 2025 após complicações de um câncer na garganta, terá uma versão sintética participando de uma parte significativa da produção. O projeto conta com o aval do espólio do ator e de sua filha, Mercedes Kilmer, que apoiaram a iniciativa como forma de honrar o legado do pai.

No programa Enquadrado, do Canal UOL, o especialista Roberto Sadovski avaliou a prática como 'perigosíssima'. Ele destacou que recriar atores falecidos com inteligência artificial pode abrir precedentes complicados na indústria do entretenimento, especialmente quanto ao uso indevido de imagem e voz sem consentimento explícito do falecido. O debate ganhou força porque, embora neste caso haja aprovação familiar, a tecnologia permite manipulações que extrapolam intenções originais.

A relevância do tema se estende além de Hollywood, impactando regulamentações globais sobre direitos de personalidade. No Brasil, discussões semelhantes surgem em meio ao avanço da inteligência artificial generativa, que já é usada em produções audiovisuais. Entender os limites dessa tecnologia é crucial para equilibrar inovação e proteção de direitos individuais.

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A recriação de Val Kilmer envolve técnicas avançadas de inteligência artificial generativa, como redes generativas antagônicas, conhecidas como GANs pela sigla em inglês, adaptadas para o português como redes generativas adversárias. Essas redes treinam modelos com milhares de horas de material audiovisual do ator, aprendendo a sintetizar movimentos faciais, expressões e entonações vocais realistas. No filme dos irmãos Voorhees, a versão digital de Kilmer será integrada a cenas filmadas, utilizando softwares de composição que mesclam o deepfake com atores reais e cenários.

Deepfake refere-se a conteúdos sintéticos hiper-realistas gerados por inteligência artificial que simulam a aparência e voz de pessoas reais. Essa tecnologia, inicialmente desenvolvida para entretenimento, evoluiu para aplicações comerciais no cinema. Os diretores afirmam que Kilmer expressou desejo de participar do projeto antes de sua morte, mas sua saúde impediu filmagens. Assim, o espólio autorizou o uso de seus dados para criar a representação digital.

Historicamente, o cinema já recorreu a efeitos visuais para 'reviver' atores. Em 2016, no filme 'Rogue One: Uma História Star Wars', a personagem Princesa Leia, interpretada por Carrie Fisher, teve cenas novas criadas com computação gráfica tradicional. Da mesma forma, Peter Cushing foi recriado digitalmente em 'Star Wars: O Despertar da Força'. No entanto, a inteligência artificial democratiza esses processos, reduzindo custos e tempo, mas elevando preocupações éticas.

Um marco recente foi o uso de IA na voz de Val Kilmer em 'Top Gun: Maverick', lançado em 2022. O ator, afetado por câncer que danificou suas cordas vocais, teve sua fala sintetizada por um modelo de inteligência artificial treinado com gravações antigas. Essa aplicação específica e consentida serviu de precedente, mas agora, post mortem, o escopo amplia para atuações completas, como no novo filme.

O mercado do entretenimento vê na inteligência artificial uma ferramenta para otimizar produções. Estúdios como Disney e Warner já experimentam IA para dublagens, criação de extras digitais e até roteiros. Segundo relatórios da indústria, o setor de efeitos visuais impulsionado por IA crescerá 20% ao ano até 2030. Para profissionais, isso significa novas oportunidades em modelagem digital, mas também ameaça de substituição em papéis secundários.

No Brasil, o uso de inteligência artificial no audiovisual ainda é emergente. Produções independentes utilizam ferramentas como Stable Diffusion para gerar visuais, enquanto grandes emissoras testam síntese de voz para legendas automáticas. Contudo, a ausência de legislação específica sobre deepfakes cria vulnerabilidades. A Lei de Direitos Autorais (9.610/98) protege obras póstumas, mas direitos de imagem, regidos pelo Código Civil, dependem de autorização familiar, sujeita a disputas judiciais.

Especialistas jurídicos enfatizam os riscos de precedentes. Sem salvaguardas, estúdios poderiam recriar celebridades falecidas em propagandas ou conteúdos controversos, violando o direito de personalidade post mortem. Nos Estados Unidos, sindicatos de atores como o SAG-AFTRA negociaram cláusulas contratuais para consentimento explícito ao uso de IA. No Brasil, entidades como o Ancine discutem regulamentações para proteger criadores nacionais.

Os impactos práticos para empresas envolvem equilíbrio entre custo-benefício e reputação. Usar IA reduz orçamentos em até 30% para efeitos especiais, mas escândalos éticos podem gerar boicotes. Para profissionais, surge a necessidade de cláusulas contratuais que regulem o uso póstumo de biometria digital, como digitalização de rosto e voz durante filmagens.

Comparativamente, casos como o anúncio de 2019 para usar James Dean em um filme japonês geraram backlash e foram arquivados. Bruce Lee foi recriado em um anúncio de bebida energética, com aprovação da família. Esses exemplos ilustram que o sucesso depende de transparência e consentimento familiar, mas não eliminam dilemas morais sobre exploração comercial do legado.

Para usuários finais, o risco reside na confusão entre real e sintético, erodindo confiança em mídias. No contexto brasileiro, onde fake news já desafiam a sociedade, deepfakes de figuras públicas poderiam manipular opiniões públicas, ampliando debates sobre a Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD).

Em síntese, o caso de Val Kilmer destaca o potencial transformador da inteligência artificial no cinema, mas também seus perigos. Especialistas como Roberto Sadovski alertam para precedentes que podem banalizar o uso de imagens póstumas, demandando regulamentações urgentes.

Possíveis desdobramentos incluem ações judiciais de herdeiros relutantes e negociações coletivas em sindicatos. Hollywood pode adotar padrões éticos voluntários, enquanto governos legislam sobre dados biométricos.

A relevância para o cenário tecnológico reside na necessidade de governança ética na IA. No Brasil, acompanhar esses avanços permite posicionar o audiovisual nacional como pioneiro em práticas responsáveis, equilibrando inovação e respeito aos direitos humanos.